ESPIRITISMO E MARXISMO: INCOMPATIBILIDADE FUNDAMENTAL E A CONTRADIÇÃO DO “ESPÍRITA COMUNISTA”

Como defender a caridade, o livre-arbítrio e a reforma moral individual enquanto se advoga a luta de classes, a revolução violenta e a ditadura do proletariado?


Introdução: Um Paradoxo Insustentável

Nos últimos tempos, tem-se observado um fenômeno curioso e, do ponto de vista doutrinário, profundamente contraditório: pessoas que se declaram adeptas da Doutrina Espírita ao mesmo tempo em que defendem e propagam os fundamentos do marxismo, do comunismo e de outras correntes de reforma social baseadas na luta de classes e na revolução violenta.

Este artigo não se propõe a discutir preferências políticas pessoais. O objetivo é, tão somente, demonstrar, à luz das obras fundamentais de Allan Kardec, que tais posições são doutrinariamente incompatíveis. Não se trata de uma questão de “esquerda” ou “direita”, mas de uma antinomia ontológica, ética e metodológica, onde defender um sistema é, por definição, negar o outro.

Como bem sintetizamos: o marxismo quer impor uma reforma social pautada no materialismo e no bem utilitário através da força e da violência. O Espiritismo, ao contrário, fundamenta-se no livre-arbítrio, na reforma íntima e na caridade como força transformadora. Uma coisa anula a outra.


A Ontologia do Conflito — Matéria vs. Espírito

Todo o edifício teórico do marxismo repousa sobre o materialismo dialético. Para Karl Marx e Friedrich Engels, como expresso no Manifesto do Partido Comunista, as ideias, a moral, a religião e a própria consciência humana são uma superestrutura — um reflexo das relações materiais de produção e dos interesses da classe dominante.

No Manifesto, eles são taxativos:

“As vossas próprias ideias são produtos das relações de produção e propriedade burguesas, tal como o vosso direito é apenas a vontade da vossa classe elevada a lei.” (p. 46)

Para o materialismo histórico, a consciência do homem é determinada pela sua existência social material. O homem é, em sua essência, um ser econômico e de classe. Não há alma imortal, não há Espírito preexistente; há apenas matéria em movimento e consciência como seu reflexo.

A Doutrina Espírita, por sua vez, nasce como a antítese declarada do materialismo. Allan Kardec é enfático ao afirmar, na Introdução de O Livro dos Espíritos, que uma das missões do Espiritismo é exatamente combater o materialismo:

“Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz que os homens compreendam onde se encontram seus verdadeiros interesses.” (O Livro dos Espíritos, cap. VIII, item 799)

Para o Espiritismo, o homem é, antes de tudo, um Espírito encarnado — um ser imaterial, inteligente, que preexiste ao corpo e a ele sobrevive. A resposta à questão “Que é a alma?” é direta: “Um Espírito encarnado” (O Livro dos Espíritos, q. 134). A consciência, a moral e o pensamento não são meros reflexos da matéria; são atributos da alma, que é a causa, não o efeito.

Portanto, a primeira grande contradição do “espírita comunista” é ontológica: como se pode construir uma visão de mundo sobre a negação daquilo que é o pilar central da própria crença? O materialismo marxista nega a existência autônoma do Espírito; o Espiritismo existe para prová-la. Um anula o outro.


O Motor da História – Luta de Classes vs. Reforma Moral Individual

Para o Manifesto Comunista, o motor da história é a luta de classes. A obra se abre com a célebre afirmação:

“A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.” (p. 29)

A sociedade moderna está irremediavelmente cindida entre “burgueses e proletários”, e o progresso social só ocorre pelo conflito, pela exploração e, finalmente, pela revolução. A emancipação da classe operária “tem de ser obra da própria classe operária” (Manifesto, p. 20; prefácio de 1888, p. 14), em um movimento coletivo, antagônico e inevitável. A solidariedade que o marxismo prega é a solidariedade de classe, que se define por oposição a outra classe.

Para a Doutrina Espírita, o verdadeiro motor da transformação social é a reforma moral do indivíduo. Em sua Viagem Espírita em 1862, Kardec analisa os sistemas socialistas utópicos de sua época (como o de Robert Owen) e aponta a razão de seu fracasso:

“O que lhes faltava não eram braços numerosos, mas sólidos corações. […] Seu erro é terem querido construir um edifício começando pela cumeeira, antes de ter assentado sólidos fundamentos.” (Viagem Espírita, p. 37-38)

E qual é o fundamento sólido para Kardec? A transformação interior do ser humano. Não adianta modificar as instituições se o homem continuar egoísta, orgulhoso e avarento. Como ele mesmo afirma no mesmo discurso:

“Sem a caridade, não há instituição humana estável. E não pode haver caridade nem fraternidade, na verdadeira acepção do termo, sem a crença.” (Viagem Espírita, p. 38)

O Espiritismo propõe uma revolução inversa: primeiro o homem se transforma pela caridade, pelo autoconhecimento e pelo esforço próprio; então, essa multidão de homens transformados cria uma nova sociedade por irradiação natural. O conflito, para Kardec, é um resquício do egoísmo e da barbárie, nunca um meio virtuoso ou desejável de progresso.


O Método da Transformação — Violência e Coerção vs. Livre-Arbítrio

Esta é, talvez, a incompatibilidade mais gritante e evidente entre as duas doutrinas.

O Manifesto Comunista não deixa margem a dúvidas sobre os meios para se alcançar a sociedade comunista. No capítulo final, os autores declaram sem rodeios:

“Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento de toda a ordem social até aqui. Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista!” (p. 64-65)

A linguagem é belicosa. Fala-se em “aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas”, em “guerra industrial de extermínio”, e o próprio método proposto é a conquista violenta do poder político. O capitalista não é “convertido” pela razão ou pela caridade; ele é expropriado, seus bens são confiscados, e sua classe é destruída como tal.

O Espiritismo, em total e absoluta oposição, fundamenta-se no princípio inalienável do Livre-Arbítrio. Em O Livro dos Espíritos, a questão é direta:

“843. Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos? – Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.” (O Livro dos Espíritos, q. 843)

O cerne da evolução espiritual é a escolha livre e consciente. Não se pode forçar ninguém a ser bom, e a bondade forçada não tem mérito algum. A caridade, para ser verdadeira, deve brotar do coração, não ser imposta por decretos ou canhões. O egoísta não pode ser “desapropriado” de seu egoísmo; ele precisa, por seu próprio esforço e compreensão, chegar à conclusão de que o egoísmo é prejudicial a si mesmo e aos outros.

A duração do sofrimento do Espírito culpado está subordinada ao seu próprio aperfeiçoamento voluntário

Em O Céu e o Inferno, Kardec é ainda mais claro ao explicar que a duração do sofrimento do Espírito culpado está subordinada ao seu próprio aperfeiçoamento voluntário:

“8º) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem.” (O Céu e o Inferno, cap. VIII, item 8º)

A reforma, portanto, é um ato da vontade individual, não uma imposição externa. O Espiritismo respeita o tempo de cada um, a escolha de cada um, o caminho de cada um. A revolução violenta, que não respeita a liberdade de ninguém, é a antítese completa desse princípio.

A hipocrisia aqui é evidente: como um espírita pode, com base na caridade e no respeito ao livre-arbítrio do próximo, defender um sistema que prega o extermínio de uma classe social (“inimigo de classe”) e a ditadura do proletariado como etapas necessárias para um bem maior? Isso é a antítese completa do “Fazei aos outros o que quereríeis que vos fizessem”.


As Provas da Riqueza e da Pobreza – Instrumentos de Evolução, não Estruturas a Serem Abolidas pela Força

Aqui chegamos a um ponto crucial, frequentemente ignorado pelos que tentam conciliar o Espiritismo com ideologias materialistas.

No Espiritismo, a riqueza e a pobreza não são meras “estruturas sociais injustas” a serem abolidas pela força. São, antes de tudo, provas – experiências necessárias ao aprendizado e à evolução do Espírito. Em O Livro dos Espíritos, a questão é clara:

“814. Por que Deus a uns concedeu as riquezas e o poder, e a outros, a miséria? – Para experimentá-los de modos diferentes. Além disso, como sabeis, essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com frequência.”

“815. Qual das duas provas é mais terrível para o homem, a da desgraça ou a da riqueza? — São-no tanto uma quanto a outra. A miséria provoca as queixas contra a Providência, a riqueza incita a todos os excessos.” (O Livro dos Espíritos, q. 814-815)

A riqueza, portanto, não é um “mal em si” que precisa ser extirpado pela revolução. É uma prova perigosa, que pode levar o Espírito ao orgulho, ao egoísmo e à avareza – mas que também pode ser bem utilizada como instrumento de caridade e auxílio ao próximo. A pobreza, por sua vez, é uma prova de resignação, que pode levar o Espírito à revolta contra Deus ou à humildade e à paciência.

A existência dessas provas não é um acidente histórico ou uma “injustiça social” a ser corrigida pela violência. Ela é uma característica do nosso planeta, que se encontra em uma fase específica de sua evolução – a de expiações e provas. Kardec explica que a Terra um dia se transformará, deixará de ser um mundo de provas e se tornará um mundo de regeneração. Nessa nova fase, as condições materiais serão outras, e os Espíritos que aqui encarnarão já não terão necessidade de passar pelas provas da riqueza e da miséria.

A transformação não se dará pela força

Mas essa transformação não se dará pela força. Não será uma revolução violenta que a produzirá. Ao contrário, a transformação será a consequência natural da evolução moral dos Espíritos que habitam a Terra. Nas palavras do próprio Kardec:

“O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que a vêm habitar, os bons predominarem, porque, então, farão que aí reinem o amor e a justiça, fonte do bem e da felicidade. Por meio do progresso moral e praticando as leis de Deus é que o homem atrairá para a Terra os bons Espíritos e dela afastará os maus.” (O Livro dos Espíritos, q. 1019)

Ou seja: primeiro o homem se torna bom, por seu próprio esforço, compreensão e vontade; então, naturalmente, suas instituições se tornam boas. A violência, a coerção e a imposição de um modelo à força são métodos que pertencem ao velho mundo, ao mundo do egoísmo e da barbárie – exatamente o mundo que se quer superar.

Um “espírita comunista” que defende a expropriação forçada dos ricos está, na prática, negando a própria razão de ser da riqueza como prova. Está dizendo, em outras palavras: “A riqueza não é uma prova para o Espírito; é apenas um roubo a ser reparado pela violência”. E, ao fazer isso, está propondo um método que não transforma ninguém – apenas amedronta e subjuga – e que, portanto, é inútil para o verdadeiro progresso espiritual da humanidade.


A Crítica Espírita aos Sistemas de Reforma Social

É importante notar que Allan Kardec não era ingênuo. Ele conhecia os sistemas de reforma social de seu tempo (socialismo utópico, fourierismo, owenismo) e os analisou criticamente. Em sua Viagem Espírita em 1862, ele faz uma análise surpreendentemente aguda, que poderia muito bem ser dirigida ao marxismo:

“Alguns homens bem intencionados, tocados pelos sofrimentos de uma parte de seus semelhantes, supuseram encontrar o remédio para o mal em certas doutrinas de reforma social. […] Os autores, fundadores ou promotores de todos esses sistemas, sem exceção, não visaram senão a organização da vida material de uma maneira proveitosa a todos. A finalidade é louvável, indiscutivelmente. Resta saber se, nesse edifício, não falta à base que, só ela, poderia consolidá-lo.” (Viagem Espírita, p. 36)

E qual é a base que falta? Kardec responde:

“A comunidade é a abnegação mais completa da personalidade. Ela requer o devotamento mais absoluto, pois cada pessoa deve pagar de sua pessoa. Ora, o móvel da abnegação e do devotamento é a Caridade, isto é, o amor ao próximo. Entretanto, é preciso reconhecer que a base da caridade é a crença; que a falta de crença conduz ao materialismo, e o materialismo ao egoísmo.” (Viagem Espírita, p. 37)

A crítica de Kardec é precisa: os sistemas de reforma social que ignoram a dimensão espiritual do homem estão condenados ao fracasso porque tentam construir a fraternidade sobre o egoísmo, a solidariedade sobre a incredulidade. O marxismo, ao negar Deus, a alma e a vida futura, remove exatamente a base que poderia sustentar a abnegação e o devotamento desinteressados.

E mais: ao tentar impor pela força o que deveria brotar do coração, tais sistemas não apenas falham em transformar o homem, como o endurecem ainda mais, exatamente como acontece com o Espírito que se revolta contra Deus diante das provações. A revolução violenta produz revolucionários amargurados, não homens de bem.


Conclusão: A Incoerência é Doutrinária, não Política

Defender o comunismo e o Espiritismo simultaneamente não é um problema de “abertura política” ou “pluralismo de ideias”. É uma contradição lógica e doutrinária fundamental, comparável a defender o ateísmo e o sacerdócio ao mesmo tempo.

Aquele que se diz espírita e se proclama marxista ou comunista precisa, no mínimo, explicar como concilia:

Doutrina Espírita Marxismo-Comunismo
Acredita na imortalidade e na preexistência da alma Afirma que a consciência é um reflexo da matéria
O motor da história é a reforma moral individual O motor da história é a luta de classes
O método é a caridade, o exemplo e a persuasão O método é a revolução violenta e a ditadura
O progresso depende do livre-arbítrio de cada um O progresso exige a imposição de uma nova ordem
A riqueza e a pobreza são provas para o Espírito A riqueza é, por definição, fruto da exploração
A transformação social é consequência da evolução moral A transformação social é causa da evolução do homem
O fim da desigualdade virá naturalmente com o progresso moral O fim da desigualdade deve ser imposto pela força

Não se trata de defender o capitalismo ou qualquer outro sistema. Trata-se de reconhecer que o Espiritismo propõe um caminho próprio, original e singular: a transformação pela educação, pela fé racional, pelo exemplo e pela caridade. Abraçar a lógica marxista é, no fundo, demonstrar uma profunda descrença no poder reformador do Espiritismo.

É dizer, na prática, que a caridade, o amor ao próximo e o livre-arbítrio são insuficientes para mudar o mundo e que, para consertar a sociedade, a violência é necessária. É afirmar que o exemplo de Jesus – que pregou o perdão, a misericórdia e a transformação pelo amor – é impotente diante da força das armas e das barricadas.

O verdadeiro espírita compreende que as provas da riqueza e da pobreza são necessárias para o aprendizado dos Espíritos que encarnam na Terra. Ele sabe que não pode, pela força, abolir essas provas sem prejudicar o livre-arbítrio e a evolução de seus irmãos. O que ele pode – e deve – fazer é, pelo seu próprio exemplo de desprendimento e caridade, auxiliar aqueles que o cercam a compreender o verdadeiro significado da felicidade e do bem.

E quando um número suficiente de Espíritos houver compreendido isso, naturalmente a Terra se transformará, e as condições de prova darão lugar a condições de regeneração. Mas essa transformação será o resultado de um longo processo de conscientização voluntária, não de uma imposição violenta.

Isso, senhoras e senhores, é o oposto de tudo o que Allan Kardec nos ensinou.

O verdadeiro espírita não espera que o Estado o force a ser bom. Ele se esforça, dia após dia, por sua própria reforma íntima, certo de que é pelo exemplo, pela palavra e pela caridade que se transforma o coração humano – e que é transformando coração por coração que se transformará o mundo. Como disse Kardec em sua Viagem Espírita:

“Sede bons para com vossos irmãos, sede bons para com o mundo inteiro, sede bons para com vossos inimigos! […] Fazei esses milagres e Deus vos abençoará.” (Viagem Espírita, p. 43)

Não há espaço, nessa visão, para o ódio de classe, para a revolução violenta ou para a ditadura do proletariado. Há apenas o trabalho silencioso, contínuo e transformador da consciência que, liberta do egoísmo, constrói, pedra por pedra, o reino do bem na Terra. Que cada um escolha o seu caminho. Mas que não chame de Espiritismo aquilo que é a sua negação mais absoluta.


Allan Kardec (Paris, 1865)

“O Espiritismo não criou a renovação social, pois a maturidade da humanidade faz dessa renovação uma necessidade. Por seu poder moralizador, por suas tendências progressivas, pela elevação de seus propósitos, pela generalidade das questões que abraça, o Espiritismo está, mais que todas as outras doutrinas, apto a secundar o movimento regenerador. Por isso que é contemporâneo. Surgiu no momento em que podia ser útil, pois para ele também os tempos são chegados.” (A Gênese, cap. XVIII, item 23)





Seu relato pode iluminar vidas: Participe da Revista Espírita Semear

Você já viveu uma experiência que foge à explicação comum? Um pressentimento que se confirmou, uma visão, uma aparição, um ato de profunda abnegação ou até mesmo uma manifestação que acreditou ser de origem espiritual? Saiba que a sua vivência pode ser de imenso valor para o estudo e a compreensão da Doutrina Espírita.

Inspirados na metodologia de Allan Kardec, que valorizava a observação e a coleta de fatos para construir o conhecimento, a Revista Espírita Semear abre um espaço especial para você. Criamos um canal direto e seguro para a submissão de relatos pessoais, que serão analisados e poderão ser abordados em nossos estudos.

Que tipos de relatos podemos enviar?

O convite é amplo e abrange diversos fenômenos que despertam a curiosidade humana. Se a sua história se encaixa em algum dos tópicos abaixo, não hesite em compartilhá-la:

  1. Manifestações Materiais ou Inteligentes: Objetos que se movem, sons sem causa aparente, comunicações inteligentes por meio de mesas, psicofonia ou psicografia.
  2. Intuição e Premonição: Fatos de segunda vista, previsões, pressentimentos.
  3. Poder Oculto: Relatos sobre o poder atribuído a certas pessoas, seja ele de cura, influência ou outro tipo, com ou sem fundamento.
  4. Visões e Aparições: Encontros com entes queridos já desencarnados, avistamento de figuras espirituais.
  5. Fenômenos do Morrer: Experiências psicológicas particulares que ocorrem no momento da morte de alguém próximo (sensações, coincidências marcantes).
  6. Desafios Morais e Psicológicos: Problemas que você enfrenta e que gostaria de ver analisados sob a ótica espírita, em busca de entendimento e solução.
  7. Exemplos de Virtude: Atos notáveis de devotamento e abnegação, cuja propagação possa servir de exemplo útil e inspirador para a comunidade.
  8. Indicações de Obras: Sugestões de livros antigos ou modernos, nacionais ou estrangeiros, que contenham fatos ou opiniões relevantes sobre a manifestação dos Espíritos e suas relações com os homens.

Por que compartilhar sua história?

A página de submissão reforça um ponto fundamental: a sua identidade será preservada. A garantia é clara: “Não se preocupe, não o divulgaremos a ninguém!”. O foco está no fenômeno, na lição ou na mensagem, jamais na exposição pessoal.

Ao enviar seu relato, você contribui para:

  • A construção do conhecimento coletivo: Assim como Kardec analisou centenas de casos para codificar a Doutrina, seus relatos ajudam a identificar padrões e leis universais.
  • O consolo e a fé alheia: Sua experiência pode ser a chave que faltava para alguém que enfrenta um luto difícil ou uma crise espiritual.
  • O fortalecimento da pesquisa espírita séria: Damos continuidade ao método de observação e interpretação dos fatos, sem sensacionalismo, mas com a seriedade que o tema exige.

Como enviar seu relato?

O processo é simples, seguro e está disponível no site do Geo Legado de Allan Kardec. Basta acessar o link abaixo, preencher o formulário com o seu relato (lembrando de focar na descrição clara e objetiva dos fatos) e enviar.

➡️ Link para submissão: https://staging.geolegadodeallankardec.com.br/submissao-de-relatos-pessoais/

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Mediunidade: estudo e prática

Sob um título muito chamativo, temos mais uma série de apostilas da Federação Espírita Brasileira, dividida em dois volumes. Perguntamo-nos, sem conhecê-la: por que criar uma apostila se as obras de Kardec já são bastante claras e concisas por si mesmas?

Encontrando os PDFs dessas apostilas, a primeira coisa que me ocorreu foi pesquisar sobre “evocações”. Abri o PDF e pesquisei por “evoca” (para abordar “evocar”, “evocação”, “evocações”, “evocado”, etc). Afinal, uma apostila que vá tratar do tema da mediunidade, no contexto espírita, necessariamente precisa abordar a evocação, ferramenta indispensável ao processo mediúnico. “Surpresa”: nada! Nada, absolutamente nada sobre as evocações, no volume I, senão uma referência à questão de a prece ser uma evocação. Vamos, então, ao volume II. Quem sabe deixaram para tratar nesse, evitando antecipar um tema tão importante. Nova “surpresa”. Nesse volume, aparece sim, o seguinte:

Deve-se evitar evocações diretas dos Espíritos, optando-se pela sua manifestação espontânea: “Frequentemente, as evocações oferecem mais dificuldades aos médiuns do que os ditados espontâneos […]”.45 Cabe à direção espiritual a seleção de desencarnados que deverão manifestar-se na reunião.

A nota de rodapé faz referência a O Livro dos Médiuns, mas o trecho foi inserido fora de contexto, para dar a falsa ideia da recomendação de não evocar diretamente os Espíritos. Na verdade, o trecho inserido está sendo mencionado, por Kardec, no sentido de denotar que as evocações oferecem mais dificuldades do que as comunicações espontâneas, já que, nas últimas, o Espírito escolhe livremente o médium mais apto à sua comunicação, coisa que se torna mais difícil no caso das evocações:

Porque, como já dissemos, as relações fluídicas nem sempre se estabelecem instantaneamente com o primeiro Espírito que se apresenta. Convém, por isso, que os médiuns não se entreguem a evocações para perguntas detalhadas sem estarem seguros do desenvolvimento de suas faculdades e da natureza dos Espíritos que os assistem, pois com os que são mal assistidos as evocações não podem ter nenhum caráter de autenticidade.

Allan Kardec — O Livro dos Médiuns

Contudo, Kardec demonstra que as evocações são preferíveis às comunicações mediúnicas, recomendando que se ocupem das últimas apenas os grupos que tiverem certeza de controlar os Espíritos:

“[…] não chamar nenhum em particular é abrir a porta a todos os que querem entrar”.

“As comunicações espontâneas não têm nenhum inconveniente quando controlamos os Espíritos e temos a certeza de não deixar que os maus venham a dominar”

Allan Kardec — O Livro dos Médiuns

Mais à frente, outra ocorrência do termo:

Os médiuns ostensivos devem, ainda, ser orientados a:

[…]

  • Ter consciência da impropriedade de evocar determinada entidade, parente ou amigo, no curso das reuniões, conscientes de que, no momento certo, eles se manifestarão, com o apoio dos orientadores espirituais.

Onde inserem novamente uma referência descontextualizada de Kardec:

O desejo natural de todo aspirante a médium é o de poder conversar com os Espíritos das pessoas que lhe são caras; deve, porém, moderar a sua impaciência, porque a comunicação com determinado Espírito apresenta muitas vezes dificuldades materiais que a tornam impossível ao principiante.

Allan Kardec — O Livro dos Médiuns

Notem que Kardec diz: ao principiante. Isso não é destacado e, no texto, acaba passando como uma orientação geral aos médiuns, acrescida à afirmação anterior — “Ter consciência da impropriedade de evocar determinada entidade, parente ou amigo, no curso das reuniões, conscientes de que, no momento certo, eles se manifestarão, com o apoio dos orientadores espirituais”, que é completamente falsa, já que a evocação era ferramenta utilizada por Kardec e incontáveis outros, necessária para o necessário diálogo e questionamento dos Espíritos. Além disso, não há, no restante da apostila, nenhuma menção à maneira correta de fazer as evocações e sua utilidade, coisa que, logicamente, é tratada por Kardec em O Livro dos Médiuns e em outras obras.

Na verdade, tudo isso não me espanta. Sendo a Federação Espírita Brasileira uma instituição roustainguista, tendo atuado para paulatinamente desviar o Movimento Espírita, decerto não lhe seria interessante colocar em foco justamente a ferramenta que, quando retomada, provocará sua desgraça, posto que dará a oportunidade do questionamento aos Espíritos, seguindo os passos de Kardec, dos diversos absurdos proferidos e impressos, sem nenhum cuidado, pela FEB, durante mais de um século.

Assim como o ESDE – Ensino Sistematizado da Doutrina Espírita – está repleto de absurdos e desvios, cultuando o apreço a Brasil, Coração do Mundo, obra de um Espírito mistificador, essas apostilas também cumprem, sim, o seu propósito: o de continuar o desvio.

Volto a repetir: Espiritismo se estuda nas obras originais, não adulteradas, de Kardec (clique para baixar). Corram, corram da FEB!




O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita

O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo que, para alguns, já é muito claro, há muito tempo.

Tudo começou com a leitura de Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec, de Wilson Garcia. O fato inconteste, finalmente vem dar luz às nossas dúvidas: a Federação Espírita Brasileira é uma instituição de tradição e raízes roustainguistas, desde seus primeiros passos!

Roustaing

Roustaing — Jean-Baptiste Roustaing — para quem não sabe, foi um poderoso advogado à época de Kardec. Resumidamente, passou a receber comunicações espíritas através de uma médium — sim, apenas uma médium. Nessas comunicações, “os Espíritos” (provavelmente era apenas um) apresentavam-se como sendo os quatro evangelistas e diziam que ele, Roustaing, era o Revelador das Revelações. Não é necessário dizer que isso era uma flagrante mistificação, é? Diremos: isso era uma flagrante mistificação, facilmente reconhecida por alguém que conhecesse profundamente a ciência espírita. Esse alguém, Kardec, critica a obra transmitida por esses Espíritos, “Os Evangelhos”, e, assim, tocando no orgulho e na vaidade gritantes daquele senhor, cria um novo inimigo.

Dentre os dogmas admitidos por esse senhor, estava a ideia de que um Espírito que erra muito é enviado para um planeta inferior, onde encarnaria como uma lesma (“criptógamos carnudos”). Havia também o dogma da queda pelo pecado, onde o ser humano somente teria que encarnar após cometer um erro e, assim, adquirir uma culpa que o projetaria a um castigo, pela encarnação — a mesma ideia inserida na adulteração de O Céu e o Inferno — bem como o dogma de que Jesus era apenas um agênere, ou seja, jamais encarnou entre nós.

Ideias místicas, por alguma razão que não compreendemos, agradam a muitos, por mais complicadas e sem sentido que possam nos parecer, frente à inquebrantável cristalinidade do Espiritismo. Assim, essas ideias encontraram coro ainda em território Francês, inclusive por Leymarrie, responsável maior pela adulteração dos propósitos da Sociedade Anônima e da Revista Espírita, após a morte de Kardec. Logo, essas ideias foram importadas para solo brasileiro, onde se fundou o Grupo Sayão ((Antônio Luis Sayão, esse mesmo, cultuado pela FEB)), ou Grupo dos Humildes, ou Grupo Ismael. Nesse grupo, aliás, comunicava-se o Espírito do “Anjo” Ismael, reproduzindo diversos absurdos misticistas, o mesmo “Anjo” Ismael que aparece em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, uma obra produzida por um Espírito mistificador, repleta de absurdos misticistas e mesmo de mentiras. Desse grupo fazia parte, também, o tão conhecido Dr. Bezerra de Menezes. É.

FEB, roustainguista

Antes do Grupo Sayão, fundou-se o Grupo Confúcio. A esse Grupo pertenceram, entre outros, o Dr. Siqueira Dias, Dr. Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Dr. Antonio da Silva Neto, Dr. Joaquim Carlos Travassos, Prof. Casimir Lieutaud. Muitos desses vocês verão no material disponibilizado, declarando sua “fé” em Roustaing e nos seus quatro Evangelhos. A esse grupo seguiu a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876. “Deus, Cristo e Caridade” é, até hoje, o lema da FEB.

“Acedendo Bezerra de Menezes em aceitar a Presidência da Federação, em 1895, o ‘Grupo Ismael’ acompanhou o apóstolo, apoiou-o na direção da Casa e integrou-se a ela”, conforme se lê no portal da própria FEB (A FEB – Origens), acessado em 23/06/2024. Assim, passou a dominar a FEB um grupo roustainguista, que se estabeleceu e criou raízes que atravessariam o século XX, adentrariam o século XXI e, nos primeiros anos desse, em 2018, embora deixassem o estatuto febiano, que anteriormente obrigavam o estudo e a disseminação dessas obras, continuaram em suas entranhas, posto até hoje essa instituição não ter assumido publicamente seus desvios e se comprometido à reparação.

O coordenador da Assessoria jurídica do CFN, Francisco Ferraz Batista, apresentou o resultado dos processos havidos na 29o Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, sobre a retirada, do Estatuto da FEB, da parte do item referente à divulgação e estudo das obras de J.B Roustaing. Os resultados foram favoráveis à FEB, para a retirada do referido trecho do item do seu Estatuto, o que deverá ocorrer, formalmente, em reunião da Assembleia Geral.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conselho Federativo Nacional. Ata da Reunião Ordinária do CFN – 2018. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2019/01/CFN_FEB_Ata_da_Reuniao_Ordinaria_de_2018.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

Julio Nogueira, no artigo “Breve exame dos estatutos da FEB ((NOGUEIRA, Julio. Breve exame dos estatutos da FEB. Disponível em: http://www.telma.org.br/artigos/breve-exame-dos-estatutos-da-federacao-espirita-brasileira-1883-1924-mudanca-de-orientacao-inicial-inclusao-de-roustaing-so-realizada-na-reforma-estatutaria-de-1917-criacao-de-sistema-de-poder-exclusivista-que-nao-nasce-do-consenso-ent. Acesso em: 24 jun. 2024.))”, explica bem sobre o estatuto febiano e suas relações com Roustaing.

A FEB deixou o roustainguismo?

A retirada desse trecho do estatuto da FEB obviamente não retirou Roustaing de suas entranhas, posto que continua constando a obrigatoriedade do estudo de “Brasil, Coração do Mundo”, obra que continua sustentando a mentira sobre Roustaing, destacada por nós em negrito:

“Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico”.

CAMPOS, Humberto de. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB – Federação Espírita Brasileira, 1938. Disponível em: https://files.comunidades.net/portaldoespirito/Brasil_Coracao_do_Mundo_Patria_do_Evangelho.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

É assim que, “para ser espírita”, na generalidade dos centros espíritas em que se pise, te direcionarão à catequização febiana, estudando o “Espiritismo” não nas obras de Kardec, mas nas apostilas da Federação Espírita Brasileira, onde, trazendo como obra básica “Brasil, Coração do Mundo”, valida-se ao mesmo tempo a mentira sobre a figura de Roustaing e o misticismo do “anjo” Ismael. Valida-se, por conseguinte, toda a tradição febiana e o descarte de toda a metodologia e toda a organização necessárias para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, substituindo-se toda a ciência espírita pela crença cega nos Espíritos e nas personalidades chanceladas pela FEB…

Cita Sérgio Aleixo:

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter do rustenismo no mundo, que registra:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.

ALEIXO, Sérgio. O roustainguismo nas obras de Chico Xavier. Disponível em: https://memoriaspirito.wordpress.com/roustainguismo-herculano-pires/roustainguismo-chico-xavier-sergio-aleixo/. Acesso em: 24 jun. 2024.

Poderíamos estender este artigo longamente, demonstrando que os presidentes dessa instituição sempre foram roustainguistas; que a FEB, várias vezes, conforme se lê em O Reformador, colocou Roustaing acima de Kardec; que a FEB, no início do século XX, publicou a obra Os Evangelhos, de Roustaing, trazendo, no prefácio, uma verdadeira afronta a Kardec, ao Espiritismo e aos espíritas confessos. Deixaremos essa constatação a cargo do prezado leitor, que encontrará no material aqui disponibilizado, obtido em grande parte do próprio site da FEB (no Google, pesquise assim: “site:febnet.org.br Roustaing”), a prova do que ora dizemos. Limitamo-nos a destacar a seguinte imagem, obtida de um documento oriundo do site da própria FEB:

https://www.febnet.org.br/ba/file/Horarios/3_feira_O_Evangelho.pdf

Importante também destacar que, no domínio da FEB, consta um glossário, “Espiritismo de A a Z”, constando a explicação de termos e vocábulos — à luz do Espiritismo, óbvio? Não. À sombra de Roustaing:

http://www.sistemas.febnet.org.br/site/az/AZ-Vocabulos-e-Conceitos.php?CodVoc=380&L=3&busca=&CodLivro=

Movimento Espírita afastado do Espiritismo

Ocuparemo-nos, porém, de avaliar os efeitos de um Movimento Espírita formado pela FEB:

Espíritas que desconhecem o Espiritismo; espíritas que têm medo dos Espíritos; espíritas que não evocam os Espíritos, questionando as comunicações evidentemente enganosas; espíritas que creem cegamente nas comunicações dos Espíritos, aceitando tudo à guisa de “complemento doutrinário”; espíritas que não praticam a mediunidade no lar, crendo que isso atrairia obsessores e que – um absurdo – somente no centro espírita teriam proteção dos bons Espíritos, que se eles não fossem aos lares dos bem intencionados; espíritas, enfim, que reproduzem as diversas falsas ideias, colhidas das comunicações aceitas cegamente e das opiniões de médiuns idolatrados, provocando verdadeiro vexame ao Espiritismo e dando munição aos seus críticos.

Devemos citar que, dentre esses médiuns idolatrados, figura Divaldo Franco, que, nas palavras de Augusto dos Anjos:

Divaldo Pereira Franco, o primeiro vintém, por mais de uma vez fez a mim, pessoalmente, a afirmativa de que não há como explicar os Evangelhos senão à luz da “Revelação da Revelação”. Seria uma posição reservada, apenas para meu conhecimento particular? Claro que não. Antes que tudo porque os homens de bem não têm por vezo, sob nenhum pretexto, formar posições dúbias, uma pública e outra para os amigos particulares. Esse comportamento anfibológico não cabe nos espíritos de boa moral. Depois, porque a mesma afirmativa o estimado médium baiano já a fez da tribuna, a plenos pulmões, do alto da autoridade e da retumbância que lhe reconhecemos e que tanto têm servido à iluminação espiritual de nós todos, espíritas do Brasil e de fora do Brasil. Para prová-lo, transcrevo a seguir, «verbo ad verbum», as mais recentes palavras de Divaldo Pereira Franco pro- nunciadas do alto da tribuna do Grupo Espírita Fabiano (um dos mais sérios e bem orientados grupos que existem na Guanabara), na noite do dia 6 de Outubro de 1969, estando como de costume superlotado o auditório. Eis o trecho da memorável alocução, gravada em fita magnética, com o conhecimento do orador:

“Durante muitos anos eu não entendia. Eu fui a Roustaing, que é a minha fonte inexaurível de estudo evangélico! Há quase vinte anos que eu leio o benfeitor João Batista Roustaing, meditando na sua palavrazinha, nas belas informações da Sra. Collignon, provindas da Espiritualidade. Mas é de uma interpretação maravilhosa!”

ANJOS, Luciano dos. Um gosto e 4 vinténs. Reformador, Rio de Janeiro, p. 9-11, jan. 1970. Extraído do livro A Posição Zero.

Infelizmente, esse não foi o único caso de um médium idolatrado ou de suas psicografias defendendo a figura de Roustaing e suas ideias, como poderão constatar neste artigo. Lembramos que, aqui, estamos discutindo ideias, e não julgando pessoas.

É evidente que, embora nem todo o Movimento Espírita seja filiado à FEB, os tentáculos do roustainguismo e do misticismo envolveram todo o Movimento Espírita Brasileiro. Infelizmente, esses tentáculos também atravessaram os oceanos…

Plano de Campanha

Vemos, enfim, cumprida a “profecia” realizada em 1867 e apresentada na Revista Espírita de agosto do mesmo ano, artigo “Plano de Campanha”:

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

A tão desejada unidade do Movimento Espírita não se dará pela afiliação a uma instituição que mais se assemelha ao clero católico. Não. Isso, aliás, contraria os planos para o Espiritismo, idealizados por Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868 — Constituição Transitória do Espiritismo. Essa unidade somente se dará entre aqueles que, de boa vontade, mergulharem no estudo da ciência espírita, voltando a, depois disso, praticarem a mediunidade no lar, em pequenos grupos, harmoniosos, coesos, realizando a análise das comunicações e das evocações. Esses grupos, espalhados por toda parte, colaborando entre si, sem nenhuma submissão ao controle de uma instituição, mas, sim, ao controle da generalidade dos ensinamentos dos Espíritos, submetidos ao crivo da razão, poderão, então, voltar a trabalhar no desenvolvimento doutrinário. Não antes, não sem isso.

Por isso, destacamos a necessidade da formação de grupos de estudos – no lar, pela internet, no centro espírita – para o estudo dedicado das obras de Kardec não adulteradas e das obras de contextualização. Deixamos, aqui, nossa modesta colaboração nesse sentido: Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos.

No dia em que a Federação Espírita Brasileira assumir seu desvio, comprometendo-se à reparação e subtraindo-se ao propósito de determinar os rumos do Espiritismo no Brasil, voltaremos a valorizá-la. Não antes, não sem isso.