Análise de Comunicação Mediúnica: Dose de Ânimo – Espírito Amigo

Fazer a análise das comunicações mediúnicas recebidas é tão importante quanto recebê-las e aplicá-las. O estudo comparativo entre elas e a Doutrina Espírita faz com que as validemos ou não. Além disso, nos ajuda a entender melhor o mundo que nos cerca.

Em uma de nossas conversas com os Espíritos no mês de setembro de 2025, recebemos a seguinte comunicação de um dos Espíritos Amigos que nos auxiliam:

Pergunta: Sobre esses esforços, às vezes parece que não encontram muitas pessoas dispostas por aí. Gostaria de uma avaliação nesse sentido de como estão.

Resposta: A calma e a resistência. Para Kardec também não foi fácil. Com todas as distorções que agora se encontram nesse mundo. Com o materialismo ainda mais pungente do que era na época de Kardec.

As pessoas, aos poucos, com a nossa intervenção, e podem ter certeza que estamos trabalhando com relação a isso, sentirão a nossa presença. Nem que para isso tenhamos que começar da mesma forma que foi no século de Kardec. Batendo, chamando.

Temos essa necessidade urgente de recomeço. E vocês serão procurados por muitos que sofrem por não entenderem aquilo que nós queremos transmitir.

Preparem-se para essa leva de pessoas que receberão nossos estímulos de todas as formas. Porque vocês serão aqueles que abrirão as portas ao recomeço. Não se assustem com a responsabilidade. Apenas façam aquilo que vocês sabem que devem fazer. Vejam que há muitas pessoas concordando com aquilo que vocês escrevem, com aquilo que vocês falam. Esses abrirão outras portas e receberão a mesma responsabilidade.

Não há um só ser, uma só consciência, que não será questionada. Eu não queria usar a palavra perturbada, mas ela significa algo que vocês entenderão. Não existe uma só consciência que não será perturbada pelo mundo que aqui se encontra, esse mundo espiritual.

Nós estamos coordenando vários grupos. Existem outros acima de mim, moralmente superiores, que nos enviam essas mensagens e nos fazem agir para que o mundo desperte — pelo menos uma grande quantidade de pessoas desperte para essa verdade absoluta que é o mundo espiritual.

E saiam do misticismo, das incoerências, das falsas verdades que se arraigaram nessa literatura vasta que vocês têm nas estantes, nas livrarias, que chamam por títulos mirabolantes, que pensam que falam do mundo espiritual. Não percam o caminho que se abriu diante de vocês. 

Desejo que todos sejam a luz de Deus. Aquilo que digo desde sempre, comunico com vocês. Propaguem essa luz. Sejam, sim, a luz de Deus. Porque aqui todos nós somos a luz de Deus.

— Espírito Amigo

Todos: Muito obrigado. Que boa dose de ânimo.

A mensagem deste Espírito Amigo apresenta diversos pontos que encontram ressonância e elucidação nas obras de Allan Kardec, especialmente no que tange à natureza da comunicação espiritual, a propagação do Espiritismo e a responsabilidade dos encarnados nesse processo.

Vamos analisar a mensagem deste Espírito ponto a ponto, à luz dos ensinamentos da Doutrina Espirita:

1. “As pessoas, aos poucos, com a nossa intervenção, e podem ter certeza que estamos trabalhando com relação a isso, sentirão a nossa presença.”

  • Esta afirmação está plenamente alinhada com o que Kardec e os Espíritos Superiores ensinam. Os Espíritos agem incessantemente sobre nós, muitas vezes sem o nosso conhecimento, quer sejamos espíritas ou médiuns. Eles formam uma população inquieta que pensa e age sem cessar, influenciando-nos para o bem ou para o mal. O Espiritismo revela esse mundo invisível e sua ação sobre o mundo visível. Os Espíritos Superiores têm uma missão de presidir à regeneração da Humanidade e dirigem os trabalhos, mesmo sem estarem encarnados. Portanto, a ideia de que os Espíritos trabalham ativamente para tornar sua presença sentida é um pilar da doutrina.

2. “Nem que para isso tenhamos que começar da mesma forma que foi no século de Kardec. Batendo, chamando. Temos essa necessidade urgente de recomeço.”

  • Aqui, o Espirito se refere às manifestações físicas ostensivas, como os fenômenos de mesas girantes e ruídos, que foram os primórdios do Espiritismo. Kardec reconhece que essas manifestações, embora superficiais, tiveram sua utilidade. Elas serviram como um “vestíbulo da ciência”, um meio inicial para convencer as pessoas da existência dos Espíritos. O próprio Kardec menciona que “quem faz dançarem os macacos pelas ruas? Serão os homens superiores?” questionando a origem de tais manifestações mais simples, mas admitindo que “têm sua utilidade, porque talvez mais que qualquer outra podem servir para convencer os homens de hoje”. Os Espíritos instrutores, entretanto, logo direcionaram o foco para a filosofia e a moral, indicando que a força do Espiritismo reside na razão e no bom senso, não apenas nos fenômenos materiais. Assim, a “necessidade urgente de recomeço” através de fenômenos físicos pode ser vista como uma estratégia para chamar a atenção dos incrédulos, um passo inicial para despertar a curiosidade e, em seguida, conduzir ao estudo sério da doutrina.

3. “E vocês serão procurados por muitos que sofrem por não entenderem aquilo que nós queremos transmitir. Preparem-se para essa leva de pessoas que receberão nossos estímulos de todas as formas. Porque vocês serão aqueles que abrirão as portas ao recomeço.”

  • Essa previsão do Espírito está muito de acordo com os propósitos do Espiritismo e a experiência relatada por Kardec. A doutrina visa consolar os que sofrem, levantar a coragem dos abatidos e arrancar o homem de suas paixões e do desespero. O Espiritismo, por sua lógica e capacidade de explicar o que outras filosofias não conseguem, atrai aqueles que buscam a verdade e a consolação. Os médiuns, ao serem intérpretes dos Espíritos, cumprem a missão de instruir os homens e conduzi-los à fé. A propagação do Espiritismo muitas vezes ocorre porque ele “dá o que não dão as outras filosofias”. A mensagem também reflete a ideia de que os adeptos, uma vez esclarecidos, têm a missão de espalhar a luz ao seu redor, sem impor, mas sim oferecendo explicações aos que as buscam de boa-fé.

4. “Não se assustem com a responsabilidade. Apenas façam aquilo que vocês sabem que devem fazer. Vejam que há muitas pessoas concordando com aquilo que vocês escrevem, com aquilo que vocês falam. Esses abrirão outras portas e receberão a mesma responsabilidade.”

  • A responsabilidade é um tema recorrente na doutrina espírita. Os médiuns, sendo favorecidos com a faculdade mediúnica, são lembrados de que serão “severamente punidos” se a desviarem de seu objetivo moral. A propagação das ideias espíritas implica o “dever de prática” e de honrar a doutrina pelas obras. A concordância de ideias e o testemunho público são sinais de que a doutrina está tocando corações e mentes, validando o trabalho dos médiuns. A multiplicação de grupos e a adesão de pessoas que leram e compreenderam são vitais para a propagação, e esses novos adeptos também assumem a responsabilidade de espalhar a luz, como “apóstolos”.

5. “Não há um só ser, uma só consciência, que não será questionada. Eu não queria usar a palavra perturbada, mas ela significa algo que vocês entenderão. Não existe uma só consciência que não será perturbada pelo mundo que aqui se encontra, esse mundo espiritual.”

  • Esta observação do Espírito Comunicante é profundamente condizente com a visão espírita da interação constante entre os dois mundos. O “mundo espiritual” que nos cerca, invisível, exerce uma ação contínua sobre nós, moral e fisicamente. Os Espíritos não são passivos; eles pensam e agem incessantemente, influenciando-nos. Essa influência, mesmo dos bons Espíritos, é um estímulo à nossa consciência, levando-nos a refletir e a progredir. A “perturbação” pode ser interpretada não como algo necessariamente negativo (como uma obsessão), mas como um despertar da consciência para a realidade espiritual, que desafia as ideias materialistas e as certezas antigas. O Espiritismo é justamente essa luz que aclara os recônditos da sociedade e perturba as trevas da incredulidade. É um “facho de luz” que dissipa o materialismo.

6. “Nós estamos coordenando vários grupos. Existem outros acima de mim, moralmente superiores, que nos enviam essas mensagens e nos fazem agir para que o mundo desperte. Pelo menos uma grande quantidade de pessoas desperte para essa verdade absoluta que é o mundo espiritual.”

  • Esta parte da mensagem reforça a estrutura hierárquica e organizada do mundo espiritual, tal como descrito por Kardec. Os Espíritos ensinam que há uma diversidade de conhecimentos e qualidades morais entre eles. Existem Espíritos de diferentes ordens, desde os “simples, ignorantes que são” até os “superiores”, que podem dar instruções. O “Espírito de Verdade” é um dos guias principais, e há grandes Espíritos que receberam missão de presidir à regeneração da Humanidade. A coordenação de grupos e a recepção de mensagens de Espíritos moralmente superiores são características do trabalho sério no Espiritismo. O objetivo final é o aperfeiçoamento do homem moral e a destruição do materialismo, levando a Humanidade a reconhecer a verdade absoluta que é o mundo espiritual. A multiplicação dos grupos e a propagação da doutrina são meios para atingir esse despertar global.

7. “E saiam do misticismo, das incoerências, das falsas verdades que se arraigaram nessa literatura vasta que vocês têm nas estantes, das livrarias, que chamam por títulos mirabolantes, que pensam que falam do mundo espiritual.”

  • Crítica ao misticismo e às falsas verdades: Kardec sempre enfatizou que o Espiritismo não é uma crença cega, mas uma doutrina que apela à razão e ao bom senso. Ele adverte contra a prática do Espiritismo que se desvia de seu objetivo moral, caindo na curiosidade estéril. A doutrina fala uma linguagem clara, sem ambiguidades e sem misticismo ou alegorias suscetíveis a falsas interpretações, pois “chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade”.
  •     Incoerências e contradições: os próprios Espíritos instrutores, citados por Kardec, alertam que se encontrará contraditores encarniçados e mesmo Espíritos que procuram semear a dúvida por malícia ou ignorância. Há Espíritos com ideias limitadas e outros que julgam saber tudo e tudo querem explicar à sua maneira, gerando opiniões dissidentes. Por isso, o Espiritismo ensina que as comunicações devem ser submetidas ao crivo da lógica e da razão, e que não se deve aceitar cegamente tudo o que vem dos Espíritos, pois eles dizem o que sabem e nem sempre possuem a verdade absoluta. Kardec, ao codificar, baseou-se na concordância universal dos ensinamentos dos Espíritos, obtida através de múltiplos médiuns em diversas regiões ao mesmo tempo, como a única garantia séria contra as contradições e sistemas parciais.
  •     “Literatura vasta que vocês têm nas estantes, das livrarias, que chamam por títulos mirabolantes”: Isso reflete a preocupação com a proliferação de obras que, embora se apresentem como espíritas, podem conter extravagâncias ou serem fruto de obsessão, prestando-se ao ridículo e dando armas aos inimigos da causa. Kardec alertava para o perigo de divulgar levianamente comunicações apócrifas ou que, por sua inferioridade, não contribuem para o esclarecimento. O verdadeiro saber e a verdadeira virtude não podem ser imitados pela ignorância e pelo vício.

8. “Não percam o caminho que se abriu diante a vocês.”

  •     O “caminho” do Espiritismo: Para Kardec, o Espiritismo é um caminho de esclarecimento e progresso moral, com a missão de combater a incredulidade e suas funestas consequências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura. Ele se apresenta como um poderoso auxiliar, confirmando suas verdades fundamentais e explicando o que o Cristo não pôde dizer em seu tempo porque a Humanidade não estava madura para compreender.
  •     Perder o caminho: Implicaria desviar-se dos princípios da verdadeira caridade e do desinteresse pessoal, ou da busca pelo aprimoramento moral. Os médiuns, por exemplo, são advertidos de que, se desviarem a mediunidade de seu objetivo moral, serão severamente punidos. A ênfase é em tornar-se melhor, pois o único meio de avançar é o de tornar-se melhor.

9. “Desejo que todos sejam a luz de Deus. Aquilo que digo desde sempre, comunico com vocês. Propaguem essa luz. Sejam, sim, a luz de Deus. Porque aqui todos nós somos a luz de Deus.”

  •     Ser e propagar a “luz de Deus”: Esta é a missão fundamental dos espíritas e da própria doutrina. Os Espíritos Superiores são os ministros de Deus e agentes de Sua vontade, com a missão de instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da humanidade. Os adeptos são chamados para pregar a palavra divina. Eles devem regar com seu suor o terreno onde semeiam, pois a doutrina só frutificará sob os esforços incessantes.
  •     “Todos nós somos a luz de Deus”: Essa afirmação sublinha a visão espírita de que todos os homens são médiuns em potencial, possuindo um Espírito familiar que os dirige para o bem, mesmo que não o percebam conscientemente. A elevação moral e intelectual é o destino de todos os Espíritos, e o conhecimento espírita é um meio de nos aproximar da Divindade. A doutrina busca despertar nos homens o amor ao bem pela prática dos preceitos de Jesus. A fé raciocinada que o Espiritismo proporciona multiplica o número dos chamados.. O progresso da Humanidade depende da compreensão e aplicação dessa luz, transformando a sociedade.



Evocações e Reuniões Mediúnicas: Fundamentos Científicos Segundo Allan Kardec

Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, dedicou-se a observar, examinar e sistematizar os fenômenos mediúnicos com rigor científico. Em suas obras – como O Livro dos Médiuns, Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas e os inúmeros relatos da Revista Espírita – Kardec descreve a prática das evocações de Espíritos e das reuniões mediúnicas como verdadeiros laboratórios de pesquisa psíquica. Neste artigo, exploramos como Kardec implementou essas práticas de forma racional, controlada e metódica no desenvolvimento da ciência espírita. Também contrastaremos essa abordagem com certas posturas do movimento espírita contemporâneo, que frequentemente condenam a evocação e adotam uma atitude mais passiva e acrítica em relação à mediunidade, inclusive desencorajando seu exercício no lar. Veremos como tais posturas modernas contrastam com os fundamentos metodológicos da ciência espírita estabelecidos por Kardec.

Kardec e a Prática Racional das Evocações de Espíritos

Desde os primórdios do Espiritismo, evocar Espíritos era uma prática comum e plenamente aceita por Kardec quando realizada com seriedade e propósitos elevados. Kardec refutou a ideia de alguns de seus contemporâneos de que seria melhor nunca chamar um Espírito específico e apenas aguardar comunicações espontâneas. Essa visão “passiva”, segundo ele, era equivocada. Sem a evocação direcionada, abria-se espaço para que qualquer Espírito presente (muitas vezes Espíritos inferiores, ávidos por se manifestar) tomasse a palavra, criando potencial confusão e mistificação. “O apelo direto feito a um determinado Espírito é um laço entre ele e nós”, explicava Kardec, “e opomos assim uma espécie de barreira aos intrusos”. A experiência demonstrava que a evocação deliberada de um Espírito conhecido ou determinado era preferível, garantindo mais controle e segurança quanto à identidade do comunicante.

Kardec não via a evocação como um ritual místico, mas como um convite respeitoso e fundamentado. Não havia fórmulas mágicas: bastava chamar o Espírito em nome de Deus, com seriedade e respeito, dizendo por exemplo: “Rogo a Deus Todo-Poderoso que permita ao Espírito de [Fulano] comunicar-se conosco”. Se o Espírito pudesse atender, normalmente haveria uma resposta imediata afirmativa ou indicativa de sua presença. Muitas vezes Kardec observou a surpreendente prontidão com que um Espírito evocado pela primeira vez comparecia, como se já estivesse prevenido pelo pensamento antecipado do evocador. Ele explica que nossos próprios guias espirituais ou Espíritos familiares se encarregam de “preparar o caminho” para a comunicação, podendo até “ir buscar” o Espírito chamado. Em alguns casos, se o Espírito não puder vir de imediato, um mensageiro espiritual informa um prazo (minutos, horas ou dias) após o qual o comunicante estará presente.

Importa notar que, segundo Kardec, qualquer Espírito, de qualquer grau evolutivo, poderia ser evocado – desde os Bons Espíritos até os Espíritos imperfeitos; pessoas falecidas recentemente ou figuras da antiguidade; sábios ilustres ou entes queridos anônimos. Isso ampliava enormemente o campo de investigação da nascente ciência espírita. Evidentemente, ele alerta que nem sempre o Espírito estará em condições ou terá permissão superior para atender; podem existir impedimentos ou recusas, conforme a vontade do Espírito ou determinação de ordens mais elevadas. Ainda assim, o princípio era claro: não há proibição intrínseca a evocar Espíritos “sofredores” ou de baixa condição – pelo contrário, essas comunicações, se conduzidas com seriedade e fim edificante, servem ao estudo e até à caridade espiritual. Kardec inclusive menciona a possibilidade de evocar o Espírito de pessoas vivas (encarnadas), em estado de desprendimento pelo sono, embora essa prática exija prudência e não deva ser feita levianamente. Em suma, a evocação para Kardec era uma ferramenta legítima de pesquisa e intercâmbio: um diálogo evocativo, consciente e respeitoso, visando sempre a instrução moral e intelectual.

Reuniões Mediúnicas como “Laboratórios” de Fenômenos Inteligentes

Kardec organizou as sessões mediúnicas com o mesmo cuidado de um cientista montando um experimento em laboratório. As reuniões mediúnicas sérias eram conduzidas com método, disciplina e objetivos definidos de estudo. Em Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas, ele enfatiza que tais reuniões devem revestir-se de caráter grave e elevado. Grupos que buscavam apenas diversão ou curiosidade ficavam “entregues a si mesmos” – nelas os assistentes pedem futilidades (adivinhação de futuro, questões banais) e inevitavelmente serão atendidos por Espíritos zombeteiros, obtendo respostas levianas. O perigo dessas reuniões frívolas, Kardec alerta, é que pessoas inexperientes podem tomar como sérias as brincadeiras de Espíritos inferiores, formando uma ideia distorcida do mundo espiritual. Por isso, silêncio, recolhimento e regularidade eram condições primordiais nas sessões espíritas dedicadas à pesquisa. As reuniões deviam ocorrer em dias e horários fixos, de preferência uma ou duas vezes por semana, para que mesmo os Espíritos comunicantes se programassem e comparecessem pontualmente. Kardec observa que muitos Espíritos tornam-se “frequentadores assíduos” de um grupo sério e regular, a ponto de cobrarem atrasos dos encarnados e só iniciarem a comunicação na hora habitual. Essa assiduidade permitia um acompanhamento contínuo e progressos cumulativos nos estudos, já que certos Espíritos instrutores assumiam papel de orientadores constantes.

Nas reuniões bem conduzidas, Kardec via a aplicação prática do método científico ao mundo espiritual. Cada sessão era registrada, as comunicações anotadas e posteriormente comparadas com outras obtidas em circunstâncias diferentes. Na Revista Espírita, ele publicou inúmeras “conversas de além-túmulo”, transcrevendo diálogos com Espíritos de diversas categorias – desde pessoas comuns recém-falecidas até nomes célebres como Mozart, Bernard Palissy ou Luis XI. O objetivo não era entretenimento, mas observação sistemática dos Espíritos em diferentes situações, colhendo dados para deduzir leis gerais. Por exemplo, Kardec acompanhou o caso de Espíritos logo após a morte e depois de algum tempo, “seguindo-os passo a passo, nessa vida de além-túmulo, para observar as mudanças que se operaram neles, em suas ideias, em suas sensações”. Esse acompanhamento permitiu estudar a evolução moral dos Espíritos, suas expiações e progressos, tal como um biólogo observaria a transformação de um organismo ao longo do tempo.

A Revista Espírita serviu como repositório desses relatórios de sessões e comunicações, permitindo a Kardec e aos leitores identificar padrões e verificar a consistência dos ensinamentos espirituais. Em uma introdução a um diálogo mediúnico publicado, Kardec ressalta a “concordância perfeita” entre as respostas obtidas do Espírito de Mozart e as dadas por outros Espíritos, em épocas e lugares diferentes, inclusive informações contidas em O Livro dos Espíritos. Ele chama a atenção do leitor para essa semelhança, sugerindo que dali se tire a devida conclusão – ou seja, a convergência de mensagens através de diferentes médiuns e contextos reforçava a validade objetiva dos ensinamentos, tal qual resultados replicados em diversos laboratórios fortalecem uma teoria científica. Essa abordagem comparativa, buscando controle cruzado das comunicações, era central no método kardeciano de pesquisa.

Outra condição fundamental era a qualidade das perguntas e do ambiente mental dos participantes. Kardec elogiava quando as questões eram formuladas “com ordem, clareza e precisão, sem se afastar da linha séria”, pois isso criava a condição essencial para obter boas comunicações. Espíritos elevados acorrem naturalmente a grupos sérios, genuinamente interessados no saber e no bem, ao passo que “os Espíritos levianos se divertem com as pessoas frívolas”. Vemos aqui um retrato claro das sessões como laboratórios morais: a “atmosfera” criada pelas intenções elevadas funciona como reagente que atrai Inteligências superiores, enquanto ambientes de leviandade sintonizam apenas com entidades de baixo teor. Além disso, Kardec recomendava que as perguntas aos Espíritos seguissem um encadeamento lógico, uma sequência natural de ideias, em vez de assuntos aleatórios e desconexos. “É essencial que elas se encadeiem com método, decorrendo naturalmente umas das outras”, pois assim “os Espíritos respondem com muito mais facilidade e clareza” do que se fossem interrogados ao acaso. Essa orientação lembra a condução de uma entrevista científica ou interrogatório racional, maximizando a coerência das revelações obtidas.

Em termos de infraestrutura, Kardec desmistificou quaisquer requisitos supersticiosos. Não havia lugares ou horários “mágicos” para a comunicação mediúnica: podia-se realizar uma reunião a qualquer dia e hora conveniente, desde que em ambiente propício ao recolhimento, longe de distrações. “Não há lugares especiais e misteriosos para as reuniões espíritas”, ele escreveu; deve-se até evitar lugares que impressionem excessivamente a imaginação. Bons Espíritos vão a toda parte onde haja um coração puro que os convoque para o bem, enquanto os maus Espíritos “não têm predileção senão pelos locais onde encontram simpatias”. Cemitérios ou locais assombrados, por exemplo, não possuem influência automática – o que importa é a sintonia moral dos participantes e não o cenário físico. Essa orientação evidencia que qualquer local adequado, inclusive um lar modesto, pode sediar uma reunião mediúnica séria, desde que haja respeito e elevação de propósitos.

Método e Controle Crítico na Ciência Espírita de Kardec

O desenvolvimento da ciência espírita por Kardec caracterizou-se por um rigor metodológico exemplar, que combinava observação empírica com raciocínio lógico. Em O Livro dos Médiuns, ele expõe detalhadamente os meios de comunicação com o mundo invisível, os diferentes tipos de médiuns e fenômenos, bem como os obstáculos e perigos na prática espírita. Kardec adotava um método de controle rigoroso das comunicações espirituais: ele somente acolhia os ensinamentos dos Espíritos quando estes faziam sentido à luz da razão e mostravam-se coerentes entre si. Conforme destaca J. Herculano Pires, Kardec submetia as explicações espirituais a um crivo racional, alinhado com a metodologia científica, e descartava tudo que fosse contraditório ou absurdo. Essa postura crítica impediu que o Espiritismo degenerasse em crendice ou misticismo cego – desde o início foi pensado como uma ciência de observação, em que hipóteses sobre a realidade espiritual deveriam ser testadas, comparadas e validadas por múltiplas evidências independentes.

Uma das grandes preocupações de Kardec era distinguir a verdade do erro nas mensagens mediúnicas. Ele sabia que nem todas as comunicações provinham de fontes fidedignas – existiam Espíritos ignorantes ou maliciosos capazes de enganar os incautos, bem como os próprios médiuns poderiam interferir, consciente ou inconscientemente. Por isso, o codificador e os Espíritos superiores constantemente recomendavam: “submetamos todas as comunicações ao controle da razão e da lógica”. Nada devia ser aceito cegamente. Essa recomendação permanece atual e é uma das pedras angulares do método kardeciano. Quando surgiam contradições ou afirmações duvidosas, Kardec não hesitava em questionar novamente o Espírito comunicante, fazer novas evocações sobre o mesmo tema e até consultar outros grupos e médiuns, até formar uma convicção embasada. O Livro dos Médiuns traz capítulos específicos sobre mistificações e contradições, ensinando a identificar comunicações apócrifas e a lidar com Espíritos trapaceiros. Kardec orienta, por exemplo, que se deve “empurrar o Espírito a mostrar seu lado fraco”: espíritos pseudo-sábios não conseguem sustentar por muito tempo um discurso elevado sem se traírem, caso sejam pressionados com perguntas aprofundadas ou tenham que manter a coerência em sucessivas mensagens. Ele também adverte os médiuns quanto à fascinação – a cegueira em relação às próprias comunicações – e insiste que a experiência e o estudo prévio são as melhores salvaguardas contra o engano espiritual.

Essa postura eminentemente crítica e investigativa contrasta com qualquer passividade. Kardec via o médium e o grupo como parte ativa do processo: cabia-lhes filtrar, analisar e questionar os Espíritos comunicantes, tal qual cientistas diante de resultados experimentais. Credulidade e ceticismo extremos eram igualmente combatidos por ele. No primeiro número da Revista Espírita, Kardec afirma que o propósito daquela publicação era manter o público informado “dos progressos desta ciência nova” e também prevení-lo contra os exageros da credulidade, tanto quanto contra o ceticismo. Ou seja, o Espiritismo nascente deveria trilhar um caminho equilibrado, alicerçado em fatos e na razão, evitando tanto a crença ingênua em qualquer espírito enganador quanto a descrença teimosa que se recusa a examinar as evidências. Essa mentalidade aberta porém exigente é o que conferiu ao Espiritismo o caráter de ciência moral: investigam-se fenômenos inteligentes com os instrumentos da lógica, da ética e do consenso universal dos ensinamentos dos Espíritos superiores.

Contrastes com a Prática Espírita Contemporânea

Passados mais de 160 anos, o movimento espírita – especialmente em alguns países como o Brasil – consolidou-se como referência em ética e caridade, porém nem sempre mantém práticas alinhadas integralmente com o espírito investigativo kardeciano. Observam-se, por exemplo, diferenças marcantes quanto ao tema das evocações e ao uso crítico da mediunidade, resultando em uma postura frequentemente mais passiva e conservadora diante dos fenômenos. A seguir, comparamos alguns pontos-chave:

  • Evocação de Espíritos: Kardec normalizava e incentivava a evocação dirigida de Espíritos para fins sérios de estudo ou auxílio mútuo, como vimos. No movimento espírita contemporâneo, porém, tornou-se quase um tabu “evocar” Espíritos por nome. Muitos centros espíritas ensinam médiuns a não chamar nenhum Espírito específico, argumentando que se deve deixar que apenas Espíritos autorizados se manifestem espontaneamente. Essa diretriz bem-intencionada busca evitar fraudes ou obsessões, mas acaba contrariando a orientação original de Kardec. Segundo ele, abstendo-se de evocar alguém em particular, “abre-se a porta a todos os [Espíritos] que desejam entrar” – ou seja, justamente os intrusos. A recomendação de Kardec era oposta: convidar nominalmente um Espírito elevado ou familiar específico, em nome do bem, cria um vínculo e dificulta a interferência de mistificadores. A prática moderna de apenas orar genericamente e esperar comunicações passivas pode, ironicamente, deixar o grupo mais vulnerável à ação de Espíritos inferiores, ao contrário do que se presume. Além disso, abdicar das evocações empobrece o conteúdo das reuniões: Kardec demonstrou ser possível entrevistar Espíritos sobre temas profundos (como na conversa com Mozart, onde se discutem questões de mediunidade e imortalidade) e assim enriquecer o conhecimento espírita. Hoje, essa postura investigativa muitas vezes cede lugar a mensagens espirituais genéricas, aceitas sem maior questionamento.
  • Atitude Crítica versus Passividade: Outra diferença notável está na maneira de encarar as comunicações mediúnicas. Kardec inculcava nos grupos e médiuns a necessidade do discernimento contínuo, do exame racional de cada mensagem. Ele próprio, ao dirigir a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, agia como um moderador crítico, debatendo com os Espíritos comunicantes, refutando erros doutrinários e até corrigindo Espíritos mistificadores publicamente (casos bem documentados na Revista Espírita). Em contrapartida, é comum no movimento atual uma certa resignação acrítica diante das comunicações atribuídas a Espíritos benfeitores. Muitos centros adotam a orientação de que o médium não deve duvidar ou interferir na mensagem enquanto a transmite – o que é correto do ponto de vista da passividade necessária na psicografia/psicofonia – porém, após recebida a mensagem, raramente se promove um estudo crítico do conteúdo. Mensagens assinadas por Espíritos venerados são prontamente aceitas e divulgadas, mesmo quando trazem elementos questionáveis ou contradições sutis com a Codificação. Este abafamento do espírito crítico contrasta com o conselho direto dos Espíritos superiores de ontem e de hoje: “não vos esqueçais de submeter todas as comunicações ao crivo da razão; é melhor rejeitar nove verdades do que aceitar uma única falsidade” – máxima muitas vezes reiterada nas obras básicas. Kardec mostrava que respeito aos Espíritos não implica credulidade cega; ao contrário, a verdadeira fé raciocinada exige análise e verificação. Assim, a postura contemporânea, por prudência ou mesmo comodismo, tende a supervalorizar a passividade (como se toda contestação fosse falta de humildade), enquanto o método kardeciano enfatizava a participação inteligente do investigador encarnado no diálogo com o além.
  • Exercício da Mediunidade no Lar: Um ponto de divergência prático-teórica diz respeito ao ambiente adequado para a mediunidade. No movimento atual, consolidou-se a ideia de que a mediunidade deve ser exercida preferencialmente (ou exclusivamente) no centro espírita, nunca no lar. Muitos alegam que reuniões mediúnicas domésticas seriam arriscadas, por falta de orientação de doutrinadores experientes ou por supostamente atrair más influências sem “proteção” institucional. Novamente, a leitura das obras de Kardec mostra uma perspectiva diferente. Já em 1858, ele observava que os fenômenos espíritas se propagavam com rapidez justamente porque qualquer família podia ter o seu médium e realizar comunicações em seu círculo íntimo, assim como ocorria com os sonâmbulos no magnetismo. “Se [os fenômenos] não se produzem à luz do dia, publicamente, ninguém pode opor-se a que tenham lugar na intimidade”, escreveu Kardec, concluindo que é impossível impedir qualquer pessoa de ser médium. De fato, muitas comunicações importantes vieram de pequenos grupos familiares ou de amigos, antes mesmo da fundação de sociedades espíritas oficiais. O próprio surgimento de O Livro dos Espíritos deve-se às sessões caseiras na casa da família Baudin, onde Kardec iniciou seus estudos. Em nenhum momento Kardec “proíbe” a prática mediúnica domiciliar – o que ele faz é recomendar que, seja no lar ou numa sociedade, observe-se o mesmo rigor de seriedade, com ambiente moral saudável, oração e estudo. Como já citado, não é o local físico em si que determina a qualidade da comunicação, mas sim as condições morais e fluídicas. Bons Espíritos afluem onde quer que haja sinceridade e elevação, seja numa instituição formal ou em torno de uma mesa humilde na sala de jantar. Por outro lado, Espíritos perturbadores aproveitarão qualquer brecha de invigilância, mesmo que a pessoa esteja num centro aclamado. Logo, a alegação moderna de que “mediunidade no lar” é inviável não encontra respaldo nos fatos e princípios deixados por Kardec – ao contrário, ele documentou fenômenos ocorridos nos mais diversos lugares e não exigiu uma “igreja espírita” para validá-los. Claro, há vantagens em grupos maiores e orientadores experientes, mas isso não significa que a mediunidade deva ser confinada às instituições. A ciência espírita nasceu no seio de reuniões livres e estudiosas, e não seria coerente convertê-la em monopólio de ambientes controlados.

Em resumo, o contraste se estabelece assim: Kardec legou um Espiritismo dinâmico, experimental e esclarecedor, enquanto certos segmentos do Espiritismo atual, talvez por zelo ou influência do misticismo religioso, acabam por frear o ímpeto investigativo, adotando práticas excessivamente cautelosas. Vale lembrar que Kardec e os Espíritos superiores previam essa possibilidade. Na Revista Espírita, São Luís (guia espiritual da Sociedade de Paris) alertou que os Espíritos elevados não comparecem a reuniões fúteis, mas também não proibem Espíritos inferiores de irem a reuniões sérias – estes muitas vezes ficam calados, “como os estouvados numa reunião de sábios”, acabando por aprender com os ensinamentos ali dados. Ou seja, até mesmo a presença de Espíritos menos adiantados numa sessão bem conduzida pode ter utilidade, seja pedagógica (para eles) ou esclarecedora (para nós, ao estudarmos seus depoimentos). Condenar aprioristicamente toda evocação ou toda tentativa de diálogo investigativo com Espíritos, sob pretexto de que “só os ignorantes viriam”, é desprezar uma fonte valiosa de conhecimento e auxílio. Foi dialogando com criminosos desencarnados, suicidas arrependidos, crianças desencarnadas, sábios da antiguidade, etc., que Kardec colheu material para obras como O Céu e o Inferno e enriqueceu a compreensão espírita da justiça divina. A ciência espírita, para ele, não temia encarar nenhum aspecto da realidade espiritual, desde que armada com a fé raciocinada e a moral do Evangelho.

Conclusão

As evocações e reuniões mediúnicas, tal como sistematizadas por Allan Kardec, foram alicerces do Espiritismo enquanto ciência em desenvolvimento. Kardec demonstrou que é possível abordar os fenômenos espirituais com seriedade, método e espírito crítico, extraindo deles ensinamentos morais profundos e conhecimentos sobre a natureza da alma. As evocações de Espíritos, longe de serem práticas supersticiosas, eram realizadas de forma racional e controlada, visando estudar casos e testemunhos do além-túmulo para confrontá-los entre si e com a razão. As reuniões mediúnicas atuavam como laboratórios experimentais, onde hipóteses eram testadas em repetidas comunicações, sob observação rigorosa e registro detalhado dos fatos. Dessa maneira, Kardec e seus colaboradores puderam erigir um corpo de conhecimento espírita coerente, que resiste ao escrutínio crítico até os dias de hoje.

Contemporaneamente, ao reexaminar os fundamentos metodológicos legados por Kardec, o movimento espírita é convidado a reencontrar esse equilíbrio entre fé e razão, entusiasmo e prudência. Evocar Espíritos com respeito, dialogar com eles de forma inteligente, educar médiuns e participantes para a análise lúcida das mensagens – tudo isso faz parte da herança kardeciana. Rejeitar sumariamente tais práticas pode empobrecer o Espiritismo, reduzindo-o a uma repetição passiva de verdades já conhecidas. Por outro lado, reviver o espírito investigativo de Kardec não significa temeridade ou desrespeito, mas sim fidelidade à proposta original de um Espiritismo que é ao mesmo tempo ciência de observação, filosofia racional e religião à luz do Cristo. Como Kardec bem disse, “fora da caridade não há salvação” – mas também ensinou, com o exemplo, que fora do estudo e do método não há progresso seguro. Cabe-nos, portanto, honrar esse legado, unindo o coração e o intelecto na continuidade da grande pesquisa espírita sobre o destino humano e as leis do Universo espiritual.

Fontes: Obras de Allan Kardec – Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas (1858); O Livro dos Médiuns (1861); Revista Espírita (1858-1861).




Ensinamentos de Além-Túmulo – A Generosidade

Pergunta 1 – Eu queria saber se o espírito de XXX se encontra nesse ambiente. Existiria uma possibilidade de o evocar?

Resposta 1– Existe, mas… Vocês perceberam que todos que vocês chamaram anteriormente, vieram todos ao contrário? Percebam: há muito mais para se aprender do que aquilo que vocês imaginam. Vocês lembram do pedreiro? Vocês aprenderam muito com ele.

Nós entendemos a vontade de vocês de confirmar identidades e retomar diálogos com espíritos amigos, queridos, que já atravessaram o limiar entre a vida e o mundo espiritual. Mas há uma imensidão de outros tantos que necessitam de uma comunicação, que necessitam de palavras amigas, que necessitam de orientação. E nós aqui, por mais que façamos, não os atingimos da mesma forma.

Com essa Evocação foi assim. A aproximação com vocês ofereceu a ele a oportunidade de se desvencilhar dos vícios que ele tinha. Sejam generosos com aqueles que procuram por vocês, porque o espaço está aberto.

Não quero dizer com isso que vocês não possam conversar com seus entes queridos. Mas recebam sempre aqueles que chegam como se também fossem entes queridos. O amor é uma dádiva e a caridade que fazemos com aqueles que se aproximam passa mais na construção de um mundo melhor.

Porque eles são o futuro da nova humanidade que está surgindo. Porque eles retornarão à vida corporal. E se eles não tiverem a oportunidade de saírem dos vícios morais em que se encontram, retornarão ao corpo físico, trazendo toda essa bagagem e dificultando ainda mais o novo porvir.

OBSERVAÇÕES: A mensagem é de suma importância, pois toca em pontos nevrálgicos da economia espiritual e da nossa própria missão na Terra. Havíamos acabado de tentar duas evocações diretas e, para as duas, quem se apresentou foi outro Espírito, no lugar de quem chamávamos. Nossa atitude, ao perceber a impostura, foi de acolher brevemente, sem rispidez, mas solicitando que eles aguardassem uma nova oportunidade, quase dizendo “obrigado, próximo”, perdendo de vista a oportunidade de aprendizado em vistas, talvez por um certo medo do que acontecia. Honestamente, nos sentimos envergonhados, depois da lição que ora abordamos.

O desejo de “confirmar identidades e retomar diálogos com espíritos amigos, queridos, que já atravessaram o limiar entre a vida e o mundo espiritual” e a possibilidade de comunicação com aqueles que nos precederam na grande jornada é, sem dúvida, uma consolação, que nos proporciona o meio de nos entretermos com nossos parentes e amigos desencarnados, aprendendo e ensinando. Essa comunicação nos auxilia com seus conselhos, testemunha seu afeto e a alegria que sentem por serem lembrados. É uma satisfação saber que estão felizes e, por seu intermédio, aprender os detalhes de sua nova existência, adquirindo a certeza de que um dia nos juntaremos a eles. A morte, como nos é revelado, não é uma destruição absoluta, mas uma passagem, uma transformação sem solução de continuidade, e as relações de afeição estabelecidas na Terra continuam.

Contudo, a observação de que “há uma imensidão de outros tantos que necessitam de uma comunicação, que necessitam de palavras amigas, que necessitam de orientação” aponta para uma verdade mais vasta, que transcende o âmbito das afeições pessoais. Os Espíritos que nos cercam são inumeráveis, e muitos deles, “frequentemente os mais simples”, anseiam por se comunicar. A mediunidade não é um dom exclusivo para o médium, mas para o “bem geral”. Ao seu redor, há uma “multidão de irmãos, pouco adiantados ou em sofrimento” que podem ser atraídos pelos seus pensamentos e por suas preces, levando à fé e à esperança. É por isso que, ao não evocar ninguém em particular, corre-se o risco de abrir a porta a Espíritos inferiores. Sua compaixão e sua prece podem ser um alento para os Espíritos esquecidos ou sofredores, revertendo-se em seu benefício.

O caso mencionado da evocação precedente que “a aproximação com vocês ofereceu a ele a oportunidade de se desvencilhar dos vícios que ele tinha”, ilustra perfeitamente a missão moral do Espiritismo, bem como a obrigação moral dos verdadeiros espíritas. Os Espíritos nos revelam que a vida corporal é uma escola, uma série de provas e expiações, e que o sofrimento, quando bem suportado, serve para nossa depuração e elevação. Espíritos ainda imperfeitos podem permanecer em estados de perturbação e sofrimento, revendo constantemente seus erros. A caridade, a oração e a compaixão daqueles que ficam na Terra podem, de fato, aliviar essas penas e auxiliar o Espírito a reconhecer seus erros e a se arrepender, abrindo caminho para o progresso. O arrependimento sincero, a reparação das faltas e a prática do bem são os únicos meios de abreviar os sofrimentos.

Quando o Espirito diz “Sejam generosos com aqueles que procuram por vocês, porque o espaço está aberto”, está reafirmando o princípio da caridade universal. A caridade não se limita à esmola; ela abrange a tolerância, a benevolência e o amor ao próximo. Os bons Espíritos são atraídos por corações puros e elevados, e por um desejo sincero de instruir-se. É a caridade que permite o intercâmbio fraterno entre os mundos, uma “alavanca poderosa que põe em comunicação os espíritos de todos os mundos”.

É certo que não se deve recusar a “conversar com seus entes queridos”. Isso seria negar uma das mais doces consolações que a Providência nos concede. No entanto, a Doutrina nos impele a uma visão mais ampla. A recomendação de “recebam sempre aqueles que chegam como se também fossem entes queridos” é uma aplicação prática da caridade e do amor universal. “O amor é uma dádiva e a caridade que fazemos com aqueles que se aproximam passa mais na construção de um mundo melhor”. O verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, busca ativamente o bem e a caridade, sem interesses. É por meio da prática do bem e da caridade que os laços se fortalecem, tanto entre vós quanto entre vós e o mundo espiritual.

A parte mais premente da mensagem reside na afirmação: “Porque eles são o futuro da nova humanidade que está surgindo. Porque eles retornarão à vida corporal. E se eles não tiverem a oportunidade de saírem dos vícios morais em que se encontram, retornarão ao corpo físico, trazendo toda essa bagagem e dificultando ainda mais o novo porvir”. Isso ressalta a importância da reencarnação como lei de progresso. A pluralidade das existências é necessária para que o Espírito possa depurar-se e adquirir novos conhecimentos e qualidades, até atingir a perfeição. Aqueles que partem da Terra em estado de imperfeição e vícios, se não se esforçarem para a reforma moral no mundo espiritual, retornarão à vida corporal com a mesma bagagem, e o Espiritismo nos mostra que as condições de uma nova existência dependem de si mesmos. Se não aproveitam o período de erraticidade para progredir, ou se escolhem provas que não condizem com seu adiantamento, podem dificultar seu próprio progresso. Deus, em sua infinita justiça e bondade, concede ao homem os meios de reparar suas faltas, e a reencarnação é um desses meios. As nossas ações em auxiliar esses Espíritos necessitados contribui diretamente para a “regeneração da Humanidade”, pois eles são os futuros obreiros da Terra. A nossa tarefa é de diminuir o número de nossos irmãos ignorantes, a fim de que o Livro dos Espíritos possa ser compreendido por todos.

Pergunta 2– Só um aspecto, se me permitir perguntar:  e o fator evocação que tanto Kardec falou que era importante fazer? E se nós evocamos e vem outro espírito?

Resposta 2 – Vocês podem evocar. Eu não disse que não podem. Mas quando acontece que um outro espírito se aproximar no lugar daqueles que vocês estão chamando, façam o seu melhor. Os que vão virão. Podem ficar tranquilos.

Nós procuramos deixar o espaço livre pela escolha de cada um. A frustração de vocês é fruto dos sentimentos que vocês possuem, um pouco do orgulho ferido por não serem atendidos. E é um trabalho de longo prazo.

Vocês podem, se quiserem, fazer essa divisão de um tempo a cada um (entre evocações diretas e atendimento a comunicações espontâneas), mas nada garante que ela se concretize. Tenham em mente que a liberdade aqui é respeitada. Cada um de vocês tem um aprendizado, tem uma sequência de vida e cada um de vocês tem um sentimento a ser trabalhado.

Foquem nisso e tenham fé. A espiritualidade não determina, não impõe de cima para baixo. Não forçamos ninguém a fazer tal ou qual coisa.

Entendemos sim a frustração de vocês. Às vezes é necessário que haja algum desconforto, mas é um trabalho interno, pessoal de cada um. Não desejamos que as comunicações sejam interrompidas.

Também não desejamos que vocês desistam de falar com as pessoas, com os espíritos de seus entes queridos. Persistam. Tenham fé.

OBSERVAÇÕES: A mensagem mostra verdades profundas que a Doutrina Espírita nos tem desvelado.

“Vocês podem evocar. Eu não disse que não podem. Mas quando acontece que um outro espírito se aproximar no lugar daqueles que vocês estão chamando, façam o seu melhor. Os que vão virão. Podem ficar tranquilos”, toca num ponto essencial da prática mediúnica. De fato, a possibilidade de comunicação com os Espíritos é uma consolação, que nos permite conversar com nossos entes queridos que já deixaram a Terra, auxiliando-nos com seus conselhos e testemunhando-nos seu afeto. É útil e mesmo necessário evocar Espíritos determinados. Contudo, a experiência nos mostra que, ao nosso redor, há sempre uma “imensa maioria” de Espíritos, ansiosos por se comunicar. Se não evocar ninguém em particular, abrirá a porta a todos que queiram entrar. E mesmo ao evocar, um Espírito diferente do chamado pode apresentar-se. Nestes casos, a paciência e o discernimento são nossos melhores guias. Os Espíritos que realmente têm algo de sério e útil a dizer virão, mas não estão às nossas ordens. A nossa boa intenção e a seriedade do propósito atraem os bons Espíritos.

“A frustração de vocês é fruto dos sentimentos que vocês possuem, um pouco do orgulho ferido por não serem atendidos. E é um trabalho de longo prazo”. Observamos que essa é uma lição fundamental. A Doutrina nos ensina que o Espiritismo tem como objetivo principal o “melhoramento moral da humanidade”. O orgulho e o egoísmo são vícios radicais que persistem e que os Espíritos buscam combater. A persistência em obter fenômenos específicos ou a vaidade podem levar a mistificações. É preciso ter em mente que o progresso espiritual é um trabalho contínuo, de “longo prazo”, que exige paciência e perseverança.

Quando ele diz: “Vocês podem, se quiserem, fazer essa divisão de um tempo a cada um, mas nada garante que ela se concretize. Tenham em mente que a liberdade aqui é respeitada. Cada um de vocês tem um aprendizado, tem uma sequência de vida e cada um de vocês tem um sentimento a ser trabalhado”, reforça um dos pilares de nossa fé: o livre-arbítrio e a não-imposição. Os Espíritos não se impõem; eles dão conselhos e, se não são atendidos, retiram-se. O Espírito encarnado precisa exercitar suas próprias forças e adquirir experiência para progredir, e a ação dos Espíritos protetores é regulada para não tolher o livre-arbítrio. A divisão do tempo para comunicações ou a escolha de provas pertence ao plano individual de cada Espírito, seja encarnado ou desencarnado, visando seu próprio aperfeiçoamento.

A observação de que “a espiritualidade não determina, não impõe de cima para baixo. Não forçamos ninguém a fazer tal ou qual coisa” é a confirmação do que acima dissemos. Os bons Espíritos são atraídos pela pureza de coração e pelo desejo sincero de instrução, e não por ordens ou rituais sem sentido. As verdades morais são oferecidas para que cada um as tome e as aplique, se quiser, em seu próprio progresso.

Por fim, ao afirmar “Entendemos sim a frustração de vocês. Às vezes é necessário que haja algum desconforto, mas é um trabalho interno, pessoal de cada um. Não desejamos que as comunicações sejam interrompidas. Também não desejamos que vocês desistam de falar com as pessoas, com os espíritos de seus entes queridos. Persistam. Tenham fé”, revela a compaixão e a sabedoria que permeiam o mundo espiritual. As aflições e o “desconforto” são, muitas vezes, provas necessárias para o nosso adiantamento, e a maneira como as suportamos com resignação contribui para o nosso progresso. É um trabalho do Espírito, que cada um deve empreender. A perda de entes queridos, embora dolorosa, é suavizada pela certeza da continuidade da vida e pela possibilidade de comunicação, que é uma suprema consolação. Nossos guias espirituais, como anjos guardiões, estão sempre conosco, oferecendo seu amparo e conselho, mesmo que não os percebamos diretamente. A persistência na fé e na prática do bem é o que nos fortalece e nos permite avançar no caminho da felicidade eterna.

Sigamos aguardando a chegada de novos grupos parceiros, para se juntar a nós na pesquisa, retomando o método científico necessário para o desenvolvimento do Espiritismo.




Contradições dos Espíritos

Lê-se na Revista Espírita de novembro de 1860 (“Relações afetuosas dos Espíritos”):

“Se Georges tivesse sido um desses Espíritos vulgares ou sistemáticos, que externam suas próprias ideias sem se inquietarem com sua exatidão ou sua falsidade, não teríamos dado a menor importância. Em razão de sua sabedoria e de sua profundeza habituais, poder-se-ia supor houvesse algo de verdadeiro no fundo dessa teoria, mas que o pensamento não teria sido expresso completamente. Com efeito, é o que resulta das explicações que pedimos. Temos, pois, uma prova a mais de que nada se deve aceitar sem o haver submetido ao controle da razão; e aqui a razão e os fatos nos dizem que tal teoria não poderia ser absoluta.

[…]

O simples bom-senso nos diz, pois, que a situação de que se falou é relativa e não absoluta; que pode verificar-se para alguns em dadas circunstâncias, mas não poderia ser geral, porque, do contrário, seria o maior obstáculo ao progresso do Espírito e, por isto mesmo, não seria conforme à justiça de Deus, nem à sua bondade. Evidentemente, o Espírito de Georges só encarou uma fase da erraticidade, na qual, para melhor dizer, restringiu a acepção do termo errante a uma certa categoria de Espíritos, em vez de aplicá-la, como nós o fazemos, indistintamente, a todos os Espíritos não encarnados.”

Esta é mais uma lição para os nossos diálogos com os Espíritos. Os mesmos desafios que Kardec enfrentava, nós também os enfrentaremos. A questão é que, baseando-se no que Kardec já estudou, temos um princípio, um ponto de partida, e não ficamos perdidos, sem saber como reagir.

Mais uma vez, o bom senso de Kardec nos chama à razão sobre a necessidade de *NADA* aceitar cegamente, sempre considerando todas as dificuldades nas quais as comunicações espíritas estão envolvidas. Uma vez mais, o retorno ao bom senso kardeciano contrasta gritantemente com o que o Movimento Espírita atual faz e ensina.




O verdadeiro problema do Movimento Espírita

Voltemos ao Movimento Espírita na época de Kardec, conforme a “Estatística do Espiritismo” publicada na Revista Espírita de 1869:

“católicos romanos, livres-pensadores, não ligados ao dogma, 50%; ─ católicos gregos, 15%; ─ judeus, 10%; ─ protestantes liberais, 10%; ─ católicos ligados aos dogmas, 10%; ─ protestantes ortodoxos, 3%; ─ muçulmanos, 2%”.

Desde o princípio, o Movimento Espírita foi heterogêneo quanto à origem religiosa de seus participantes. Isso nunca foi um problema. Ninguém precisa renunciar à sua identidade religiosa para estudar uma ciência. O verdadeiro problema está na perda da unidade do conhecimento dessa ciência.

Com Kardec, o Espiritismo possuía uma definição clara, princípios bem delimitados e uma defesa vigorosa de seu método de observação, comparação e controle das manifestações inteligentes. Após sua morte, a ciência foi distorcida, o método abandonado, e os princípios traídos. No Brasil, particularmente, o nome Espiritismo foi sequestrado para designar uma religião sincrética, marcada por misticismo, fatalismo e idolatria mediúnica — cujo “Vaticano” atende pelo nome de Federação [Não] Espírita Brasileira.

É preciso parar de transferir a culpa. O problema do Movimento Espírita não é, em essência, o catolicismo ou o protestantismo. O desvio central é roustainguista. O dogmatismo religioso, sim, contaminou o Movimento, mas só porque encontrou nele terreno fértil: espíritas que, sem autonomia intelectual, sem estudo rigoroso, sem espírito crítico, deixaram-se levar por autoridades humanas e abandonaram o modelo científico proposto por Kardec.

No passado, isso até poderia ser escusável, já que a Revista Espírita só foi traduzida para o português na década de 1960. Também não havia, como hoje, facilidade de acesso ao conhecimento. Hoje — e já há algum tempo — isso não mais se sustenta. Não há desculpa plausível além da pura falta de vontade de estudar a Doutrina como ela realmente é, oara ficar perdendo tempo com a sistematização de ideias colhidas em ROMANCES (sic!).

Esse é o verdadeiro desvio. Não se trata de fatores externos, mas da covardia doutrinária dos que se dizem espíritas e não ousam estudar, evocar, analisar e confrontar os erros — como Kardec fazia, com coragem e método — como muitos outros também faziam, fossem livres-pensadores, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, etc.




A chave que falta para a ciência compreender vida e morte

A ciência avançou enormemente na descrição dos mecanismos que mantêm um organismo vivo e daqueles que entram em colapso quando ele morre. Entendemos com precisão como as células funcionam, como o DNA coordena a formação de tecidos, como as proteínas regulam os processos bioquímicos, e como a morte leva à degradação dessas estruturas. Mas permanece uma questão essencial que ainda escapa aos modelos puramente materiais:

Por que a matéria se organiza?

Não apenas como ela se organiza, mas por que ela assume uma configuração funcional, integrada, coesa, direcionada? A física e a química descrevem as interações entre moléculas, mas não explicam satisfatoriamente a presença de um princípio ordenador que mantenha essa organização ao longo da vida. Tampouco explicam o porquê dessa organização cessar de maneira tão coordenada com a morte.

Essa é a chave que falta: o princípio inteligente e organizador que atua sobre a matéria. E é precisamente aqui que o Espiritismo, fundado por Allan Kardec, oferece uma contribuição decisiva para o pensamento científico.

Segundo o Espiritismo, o organismo vivo é estruturado por uma tríade: o corpo, o perispírito e o espírito. O perispírito é um envoltório semimaterial que serve de ponte entre o espírito (princípio inteligente) e o corpo (estrutura material). É o perispírito que molda o corpo físico desde a concepção e que o sustenta durante toda a vida, mantendo a coesão funcional e a identidade orgânica.

Com a morte, o espírito se desliga do corpo, cessando essa ação coordenadora. A matéria, então, entra em colapso não por uma “falha” aleatória, mas porque lhe falta o elemento que lhe dava unidade. As reações químicas que antes eram reguladas por um princípio inteligente passam a seguir apenas as leis naturais da degradação.

Essa visão não é metafísica arbitrária. Kardec propôs o Espiritismo como ciência de observação, baseada em fatos, experimentação e raciocínio. A hipótese do perispírito como modelo organizador biológico não exclui as descobertas da biologia; ela as integra numa abordagem mais ampla e coerente.

Negar essa possibilidade não é ser científico, mas ideológico. O verdadeiro espírito científico não teme ampliar seus horizontes quando os dados da realidade assim o exigem. E os fatos, tanto fisiológicos quanto mediúnicos, apontam para algo que vai além da matéria: uma inteligência que atua sobre ela.

Por isso, dizemos com firmeza:

O Espiritismo oferece a chave que falta para completar a compreensão da vida e da morte. Não se opõe à ciência verdadeira; ao contrário, convida-a a evoluir para além do reducionismo materialista.

O corpo morre. Mas a consciência, e o princípio que sustentava a organização desse corpo, seguem vivos. Essa é a chave. Essa é a ciência espiritual inaugurada por Allan Kardec. E é esse o legado que nos cabe estudar, divulgar e honrar com seriedade, profundidade e razão.




A FEB e sua contínua tentativa de manipular o Movimento Espírita

A Federação Espírita Brasileira, roustainguista praticamente desde suas origens, sempre atuou de maneira deliberada para manipular o Movimento Espírita, afastando-o do verdadeiro Espiritismo codificado por Allan Kardec. Já tratei desse desvio institucional em artigo anterior.

Sabemos bem (e, se você não sabia, agora sabe) que a FEB foi tomada por seguidores do dogmático Jean-Baptiste Roustaing a partir de 1895, quando Bezerra de Menezes — também adepto das teses roustainguistas — assumiu sua presidência. A partir dessa apropriação doutrinária, surgiu uma das maiores aberrações já vistas no Movimento Espírita Brasileiro: o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Trata-se de uma obra claramente inspirada por um Espírito mistificador — provavelmente Ismael — que serviu de base para a formulação do “Pacto Áureo” e, posteriormente, para a criação do ESDE (Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita), programa este totalmente permeado pelas distorções do roustainguismo.

Nas apostilas do ESDE, mais especificamente no capítulo 4, encontramos uma citação dessa obra (psicografada por Chico Xavier, sob suposta autoria espiritual de Humberto de Campos), que transcrevo abaixo com os devidos grifos:

[…] Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade de Lião. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing (Jean-Baptiste Roustaing), que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos.

Essa afirmação, em particular, é factualmente mentirosa. Roustaing não só não foi auxiliar de Kardec, como se colocava em nítida oposição ao Espiritismo genuíno, especialmente por sua recusa à metodologia científica que sustentava a obra kardequiana — ponto esse que representava verdadeiro calcanhar de aquiles de seus escritos místicos e doutrinariamente frágeis.

Recentemente, ao tentar mostrar essa distorção a um amigo, percebi que o tomo I do ESDE havia sido “revisado”, e a citação acima foi modificada: o nome de Roustaing foi simplesmente removido do trecho, como se nunca tivesse constado ali.

Uma tentativa sem-vergonha de apagar suas raízes roustainguistas sem, contudo, reconhecer publicamente o desvio doutrinário nem dar qualquer sinal de retorno ao caminho correto. Essa é a FEB: sempre operando nos bastidores, tentando controlar o Movimento Espírita e manter sua influência, exatamente como a Igreja Católica fez com o cristianismo ao longo dos séculos.

Não se enganem: a FEB continua roustainguista. Continua rejeitando a evocação e o exame racional das comunicações dos Espíritos — práticas essenciais à metodologia kardequiana. Continua tentando controlar a mediunidade conforme seus próprios dogmas, limitando-a aos moldes de seus centros (roustainguistas, embora se autodenominem “espíritas”). E continua silente quando deveria se levantar em defesa da verdadeira Doutrina Espírita.

A FEB, meus caros, só poderá ser considerada legítima quando, de forma pública e inequívoca, assumir seu desvio e reconhecer o erro histórico cometido. Não antes. Nunca antes disso.




Uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec

Prezado leitor, seremos breves sobre o assunto, colocando uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec. A bibliografia utilizada consta ao final. O texto será apresentado em tópicos sucintos, para facilitar a leitura.

Antes de começar, saiba que você pode obter as obras originais de Kardec, já liberadas em PDF pela editora FEAL, clicando aqui.

1. A figura de Roustaing

Por volta da década de 1860, emerge a figura de Jean-Baptiste Roustaing, influente e rico advogado francês, buscando se projetar no meio espírita. Esse senhor passa a receber psicografias, por meio de apenas uma médium, de um ou mais Espíritos que se diziam os próprios evangelistas, reproduzindo dogmas absurdos, dentre os quais ((ROUSTAING, Os Quatro Evangelhos, volumes I a IV, FEB)):

  • o dogma da queda pelo pecado, afirmando que o indivíduo só precisa encarnar depois que comete um erro;
  • o dogma do corpo fluídico de Jesus, afirmando que ele nunca esteve encarnado entre nós, sendo apenas uma materialização;
  • o dogma da retrogradação da alma (“involução”), ao afirmar que o Espírito que erra muito encarna como uma lesma (“criptógamo carnudo”).

2. Roustaing odiava a ciência espírita

Roustaing e seus seguidores passaram a odiar a ciência espírita e o método de Kardec, pois esse método era o seu calcanhar-de-aquiles, facilmente colocando abaixo sua teoria. Esse ódio transparece na publicação, em 1882, do panfleto Les quatre évangiles de J. B. Roustaing- réponse à ses critiques et à ses adversaires, édité par les élèves de J. B. Roustaing (Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing — resposta a seus críticos e a seus adversários, editado pelos discípulos de J. B. Roustaing), um panfleto escrito dezesseis anos antes por Roustaing.

As intenções de Roustaing são confirmadas pelos Espíritos, quando Kardec, em 16 de setembro de 1862, questiona a respeito desse senhor, que desejava que Kardec fosse até sua casa, ao invés de visitar os espíritas operários:

Não, em geral, ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Editora FEAL, 2020.

3. A nova edição de O Céu e o Inferno

Logo após a morte de Kardec, surge uma nova edição de O Céu e o Inferno, contendo, dentre tantas alterações terríveis:

  • A remoção do prefácio da obra, onde Kardec expõe justamente o método científico necessário para a Doutrina Espírita;
  • A alteração completa do capítulo VIII, tornando-se VII, com a criação do subtítulo “Código Penal da Vida Futura”, um título absurdo, nele inserindo o item 10, onde se diz que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — o mesmo dogma de Roustaing, extenuadamente combatido por Kardec e pelos Espíritos.
  • A perda da correspondência entre os 25 itens do capítulo VIII com o restante do livro.

4. A nova edição de A Gênese

Em 1872, surge a nova edição de A Gênese, onde constam adulterações muito importantes:

Removido o item 2 do capítulo IV, onde Kardec fala justamente sobre os princípios de fé cega e obediência passiva: “A veneração aos livros sagrados, quase sempre considerados como tendo descido do céu, ou inspirados pela divindade, proibiam qualquer exame”.

  • Sobre a desaparição do corpo de Jesus, foi removido o item 67, em que Kardec trata da questão do desaparecimento do corpo de Jesus, afirmando que a questão ainda não havia sido completamente solucionada pela ciência espírita: “Ora, até o presente, nenhuma das [opiniões pessoais] que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle”. Lembre-se: Roustaing admitia o dogma de que Jesus estava entre nós apenas em materialização do corpo fluídico, e odiava o método do duplo controle ((“Esse duplo controle é basilar e obrigatório para a aceitação de qualquer novo conceito fundamental da doutrina espírita por Kardec. Enquanto isso não tenha ocorrido, será considerada simples opinião, quer tenha vindo de um homem, quer de um Espírito” — FIGUEIREDO, 2021)).
  • No capítulo XVIII, item 20, foi removido todo o trecho em que Kardec diz: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência”.
  • No item 24 do mesmo capítulo, foi removido todo o item 24, em que Kardec faz grave observação acerca dos inimigos do progresso moral (grifos nossos):

Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria.

Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.

5. Adulteração publicada em Obras Póstumas

Na publicação de Obras Póstumas, por Pierre Gaetan Leymarrie, o autor insere uma psicografia adulterada, na qual Kardec está solicitando conselhos sobre a nova edição de A Gênese, que ele estava, sim, elaborando:

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrinatudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa psicografia clicando aqui.

Leymarie, buscando reforçar a ideia de que a quinta edição de A Gênese (já colocada sob questionamento desde aquela época) teria sido produzida pelas mãos de Kardec, utiliza apenas o trecho final desse diálogo, descartando o início dele e inserindo um trecho que não existia, no começo:

22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular — Médium: Sr. D…)
A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese, para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta — É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipadamente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais. Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém, não lhe consagres excessivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões.

6. O fato jurídico insuperável

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal — assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni PrivatoJúlio NogueiraLucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, leigos em matéria de direito autoral têm encontrado ressonância em alguns indivíduos e, também, na Federação Espírita Brasileira, trabalhando por manter uma tese negacionista e contrariando a lei.

7. Late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, mas é um pássaro?

Tendo chegado aqui, tendo dado a devida atenção aos fatos, verificáveis na bibliografia indicada, o prezado leitor, além de tudo agindo de maneira racional e lógica (e respeitando a lei) não poderá ter nenhuma dúvida sobre os fatos das adulterações. Dizer em contrário seria contraria a lei e renegar aquilo que é transparente. Afinal, se late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, definitivamente é um cão, e não um pássaro — mas “alguns” querem que seja.

Ora, prezado leitor, para dar azo à tese negacionista desses senhores, tentando sustentar que não foram adulterações, mas sim modificações feitas pelas mãos de Kardec:

  • seria, em primeiro lugar, necessário contrariar a lei;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Roustaing odiava a ciência espírita e que queria tomar o lugar de Kardec;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Guerin, influente e rico seguidor de Roustaing, ofereceu sua influência ao redor dos novos presidentes da Sociedade Anônima;
  • seria necessário admitir que Kardec, sem nenhuma explicação possível, removeu trechos tão importantes justamente nos pontos de maior choque com as teses roustainguistas ou seu modus operandi;
  • seria necessário admitir que Kardec contrariou a ciência espírita, para dizer, na adulteração de O Céu e o Inferno, que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — exatamente a tese roustainguista, “por acaso”. Isso é falso e, aliás, é desmentido inclusive na Gênese adulterada, na análise da passagem do Cego de Nascença: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso”.
  • seria, necessário ignorar voluntariamente que Leymarie, para dar suporte à tese de que a 5⁠ª edição de A Gênese teria sido produzida por Kardec, publicou uma psicografia adulterada, cortando a parte que toca na importância de NÃO REMOVER NENHUMA IDEIA DOUTRINÁRIA, coisa feita na adulteração.
  • seria necessário aposentar a racionalidade frente a coisas tão óbvias, deixando de lado a orientação tão importante de Erasto: “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230 de O Livro dos Médiuns).

8. Conclusão

Não estamos aqui para tentar forçar o entendimento de quem não quer entender e, por desejar admitir sofismas, dá azo à fascinação — como Roustaing fez, frente a ideias tão absurdas como aquelas. Para quem quer entender, está claro como água. Que cada um cuide de investigar melhor para chegar às suas próprias conclusões — após ter investigado tudo, e não antes.

9. Bibliografia




Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos

Boas-vindas

Bem-vindos a esta jornada, amigos de Kardec! Que satisfação vê-los aqui, almas queridas, buscando o aprendizado tão importante e do qual os espíritas se desviaram, há muito….

Atentem para a formação deste grupo ou dos demais. A iniciativa é seria e o assunto é grave. Os inimigos da doutrina novamente se agitam, pois que ela volta, agora, com toda a força, para cumprir aquilo que se propôs, há mais de um século. A humanidade grita: meu Deus, onde as respostas? Não encontrando a felicidade almejada, dia após dia, sem conseguir respostas satisfatórias, lançam-se às penúrias do materialismo desenfreado, do sensualismo, dos vícios e, muitos, não suportando ou não tendo maiores perspectivas, terminam por tirar a própria vida, para descobrir, afinal, que de nada isso adiantou.

O assunto, veem, é grave, e grave é a responsabilidade de todos os que se retiram do estudo, por orgulho e vaidade, para dar aos outros o lúgubre aspecto das opiniões construídas sobre distorções e adulterações.

É chegada a hora, meus amigos, de restabelecer aquilo que ficou para trás. É chegada a hora de multiplicar esforços e de semear, por toda a parte. Mas, atenção, pois os inimigos do bem, tristes indivíduos que ainda não conseguiram perceber o buraco que cavam para eles mesmos caírem, tentarão se estabelecer entre vocês. Mantenham-se em guarda, portanto, e não se esquivem da responsabilidade de manter a harmonia no grupo, abordando cada um que traga desarmonia ou desordem.

Confiem neste grupo, O Legado de Allan Kardec, que tem a particularidade de ser um raro grupo, neste planeta, formado com tanta identidade, tanta harmonia, tantos propósitos sérios, estabelecidos no passado, de trabalhar pela recuperação dessa Doutrina esquecida.

Sejam preces ambulantes, por suas disposições internas e pela aplicação dos princípios aprendidos às suas próprias vidas, e manterão, junto a vocês, a companhia de bons Espíritos, encarnados ou desencarnados. Não esqueçam: os bons Espíritos, seus anjos guardiões ou Espíritos protetores, abençoam esta empreitada e estarão junto a cada um de vocês, inspirando-os e intuindo-os.

União, fé, amor e caridade: este, o lema que cada indivíduo deve carregar no peito, aplicado em todo o seu entendimento e em toda a sua extensão, a si e no contato com os demais.

União: a unidade garantida pelos propósitos legítimos e pelo entendimento adequado do Espiritismo

Fé: a fé raciocinada, tão esquecida pelo Movimento Espírita, construída do entendimento racional, sem dúvidas possíveis, dos princípios da Doutrina Espírita.

Amor: o amor ao próximo, como a si mesmo. É necessário paciência e perseverança consigo mesmo, além de reconhecimento dos passos já dados, do caminho já percorrido. O mesmo deve ser aplicado aos demais.

Caridade: a caridade verdadeira é o dever moral, cumprido sem esperança de premiação ou reconhecimento. É o compartilhar, o aprender e o ensinar. Esse é o bem, a felicidade, e é por retirar-se desse papel que o indivíduo se lança nos despenhadeiros do personalismo, do egoísmo, do orgulho.

A partir de agora, esqueça os romances, esqueça o que aprendeu no Movimento Espírita ou no Centro Espírita. A partir de agora você está começando do zero e vai aprender o Espiritismo da maneira certa!

Orientações gerais

  1. A ideia é auxiliar na formação de um novo grupo ou mais, onde os participantes cuidarão de se organizarem a esse respeito. Nós daremos toda a orientação e o suporte necessários. Precisamos que uma ou mais pessoas se apresentem como iniciadores do núcleo central do grupo, de maneira pró-ativa.
  2. A proposta é que vocês criem um ou mais grupos, organizando-se entre vocês. Estaremos, junto ao meu grupo, no papel de apoiadores e orientadores.
  3. Pontualmente, poderemos elaborar estudos especiais, com a participação do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec, ou de vocês conosco.
  4. Comecem estudando “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo” e “Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal”, de Paulo Henrique de Figueiredo. Alternativamente, assistam aos vídeos destacados no tópico Materiais para estudos.
  5. Estimulamos que vocês comecem necessariamente pelo estudo da Revista Espírita. Após o estudo dos dois primeiros anos, enquanto continuam esse estudo, poderão ver a necessidade de criar um novo horário para estudar O Livro dos Médiuns. Nesse ponto, vocês estarão muito mais maduros para esse estudo.
  6. O estudo deve ser ao-vivo, por vídeo ou pessoalmente. WhatsApp é ferramenta de apoio.
  7. Não devem existir professores. Todos devem se colocar na condição de estudante que não conhece nada do Espiritismo. Foi assim que começamos.
  8. Sugestão:

    • Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo.
    • Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo.
    • No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim o grupo sai da leitura maçante.
    • Quem não fizer o estudo antes acabará tendo a possibilidade de não entender adequadamente o conteúdo. Isso é um estímulo ao estudo.
    • Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos.
    • As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, poderão ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições;

  9. Criem regras. Vejam as nossas sugestões no tópico seguinte, Sugestão de regras.
  10. Aprendam a não sistematizar conclusões sobre os artigos da Revista Espírita. Kardec deixa bem claro quando um estudo qualquer está devidamente concluído, ao menos de momento. Muitos artigos são apresentados como hipóteses, apenas.
  11. Criem documentos no Google Drive com o conteúdo de cada estudo, e façam um estudo prévio, fazendo anotações e comentários nesse documento. Isso ajuda a enriquecer o aprendizado.
  12. Não visem números. Prefiram qualidade. Estudem em pequenos grupos, coesos, harmoniosos, e não tenham medo de chamar a atenção, com firmeza e caridade, daqueles que eventualmente destoem das regras e da harmonia do grupo.
  13. Deixem os romances mediúnicos e demais obras de lado. O estudo das obras de contextualização e das obras de Kardec já lhes tomará bons anos.
  14. Não busquem Espiritismo prático (reuniões mediúnicas), de início. Se houverem médiuns entre vocês, sobretudo com a mediunidade muito aflorada, é importante formar um grupo à parte, ainda mais coeso e harmonioso. Muitos cuidados serão necessários. Nesse caso, não deixem de buscar apoio em nós.
  15. Sobretudo, não se esqueçam de manter contato conosco. Cuidaremos de registrar sua(s) iniciativa(s) em nosso site e ficaremos muito felizes de podermos trocar experiências e aprendizados com vocês.
  16. Evitem apenas produzir longos vídeos para o Youtube. Foquem, principalmente, conforme o aprendizado for se estabelecendo, em produzir vídeos curtos e, principalmente, textos em blogs, de maneira colaborativa (textos em blogs são facilmente encontrados em pesquisas do Google).
  17. À medida do possível, envolvam também os jovens nesse trabalho de aprendizado, seja nos seus próprios grupos, seja incentivando-os a formarem novos grupos. Espalhem esse propósito.

Sugestão de regras

Estudos da Revista Espírita, em grupo

OBJETIVO DO GRUPO

  • O nosso principal objetivo é conhecer o Espiritismo em sua essência e aplicar esse conhecimento em nossas próprias vidas. Ao mesmo tempo, porém, desejamos fazer isso de uma forma simples, clara e amistosa, de modo que nossos estudos sejam facilmente entendidos pelo público, razão pela qual realizamos um estudo prévio e a elaboração de um conteúdo, de forma que possamos extrair o melhor de cada assunto.
  • Após cada estudo, visamos produzir artigos, neste site, que complementem e formalizem o estudo, mas que também permitam a inclusão de deficientes auditivos. É por isso, principalmente, que os estudos precisam ser simples e, em simultâneo, profundos como possível.
  • Diferentemente de outros estudos do Espiritismo, que partem de obras conclusivas, nós estamos partindo de um periódico que demonstra o método de exploração, de raciocínio e de dedução de Allan Kardec, na construção do Espiritismo (aqui entendido na parte humana dessa ciência). Existe um enorme ganho em fazer assim, mas não estamos desatentos aos assuntos que precisam ser complementados com conclusões posteriores, de modo a não ficarem “capengas”, como é o caso da teoria dos fluidos, abandonada por Kardec em sua obra final, A Gênese.
  • A Revista Espírita, diferentemente de outras obras, é um periódico que combina:

    • assuntos e “causos” da época — que, longe de serem desinteressantes, serviam para dar suporte à Doutrina, baseado no cotidiano dos fatos espíritas vivenciados dentre a população mundial, mas que, do ponto de vista atual, muitas vezes não tem muita relevância para o nosso estudo
    • escritos muito mais densos e bem elaborados por Kardec, com extrema perspicácia, que pouco a pouco, e de forma muito organizada, vão construindo toda essa ciência que é o Espiritismo — ciência desconhecida e esquecida atualmente.

  • A importância da Revista Espírita não é apenas moral, mas também prática. Ao estudá-la, vemos uma constante construção de conhecimentos, ao mesmo tempo em que constantemente vemos uma desconstrução de falsos conceitos atuais, como você precisa entender no artigo “O que é a Revista Espírita e como estudá-la?. Eis mais um motivo para o formato do nosso estudo, pois os falsos conceitos não se quebram aos golpes.
  • O Espiritismo precisa ser resgatado e conhecido em sua essência, tanto moral como prática, de modo que possamos retomar os estudos dessa Doutrina, junto aos Espíritos. Esse estudo tem um importantíssimo papel nesse sentido.
  • Hoje sabemos, afinal, que essa ciência não andava sozinha: muito longe disso, ela era um desenvolvimento do Espiritualismo Racional e uma “irmã gêmea”, como disse Kardec, do Magnetismo. É por isso que, oportunamente, abordamos esses conhecimentos, de forma simples, prática e pontual, já que, para se aprofundar sobre esses dois temas, recomendamos sempre a leitura das obras Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo e Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal, ambas de Paulo Henrique de Figueiredo, dentre outras (veja nossa lista de obras recomendadas).

Premissas

  • Neste grupo, partimos da conclusão que as duas últimas obras de Kardec, O Céu e o Inferno e A Gênese, foram adulteradas. Podemos indicar o porque de termos chegado a essa conclusão, mas não discutiremos sobre isso, posto que os fatos estão aí para cada um verificar.
  • Neste grupo, estuda-se o Espiritismo com base nas obras de Kardec, necessariamente. Isso não quer dizer que outras obras e outros autores não possam ser tratados, mas isso se fará desde que o que se busque seja a busca pela compreensão e pela aproximação, baseando-se no Espiritismo, e não para mero confronto.
  • A premissa mais básica de todas é o estudo. Ter lido aleatoriamente O Livro dos Espíritos ou O Evangelho Segundo o Espiritismo não é estudo. Estamos longe de ter abarcado o entendimento da doutrina por completo, mas existem pontos fundamentais que carecem de dedicação para serem compreendidos. Conte com o grupo para indicar e sugerir caminhos e conteúdos de importância.

REGRAS TÉCNICAS

  1. Entre nos nossos grupos do WhatsApp e do Telegram. É por eles que manteremos a comunicação direta com os demais integrantes. Se tiver os dois, entre nos dois.
  2. Não será dado a ninguém o direito de dar palavras finais sobre aquilo que não está devidamente estabelecido na Doutrina. Será, contudo, tomado o cuidado de, para cumprir essa regra, não recair em falta às regras n. 4, 5 e 6.
  3. Assim como Kardec tratava as opiniões de Espíritos desencarnados, tratamos as opiniões das almas encarnadas, isto é, aquilo que é apenas uma opinião, será tratado apenas como uma simples opinião e dela não faremos sistemas.
  4. Devemos evitar que qualquer tema que fuja daquele principal ou qualquer ponto de discórdia seja extenuadamente abordado durante o estudo, para não haver desvios e monopólio de palavras ou opiniões. O que fazer, nesses casos: buscar estudar, em Kardec, o assunto em questão e apresentar, em nova oportunidade, os resultados encontrados. O desrespeito a essa regra de bom-tom será prontamente interrompido por intercessão dos administradores.
  5. Todos têm a liberdade de chegar às suas próprias conclusões, levados pela própria razão, resguardados os objetivos do estudo e a base doutrinária. Por exemplo, o tema sobre a existência de colônias espirituais não está devidamente consolidado, mas a questão da reencarnação está. Se aquilo que está consolidado, na Doutrina, não foi aceito pela razão de determinada pessoa, ela com certeza se sentirá inclinada a deixar os estudos, já que não lhe falam à razão. O que não será aceito será a sistematização de opiniões pessoais no Grupo, conforme exposto acima.
  6. Não serão abordados temas políticos e religiosos (este, no sentido em que possa trazer qualquer inquietação ou humilhação. Lembramos que o Espiritismo está aberto a pessoas de todas as crenças). Aqui, parafraseamos Kardec, em Viagem Espírita em 1862:

[…] deve-se abster, nas reuniões, de discutir dogmas particulares, o que, certamente, melindraria certas consciências, ao passo que as questões de moral são de todas as religiões e de todos os países. O Espiritismo é um terreno neutro, sobre o qual todas as opiniões religiosas podem encontrar-se e se dar as mãos. Ora, a desunião poderia nascer da controvérsia. Não vos esqueçais de que a desunião é um dos meios pelos quais os inimigos do Espiritismo buscam atacá-lo; é com esse objetivo que muitas vezes eles induzem certos grupos a se ocuparem de questões irritantes ou comprometedoras, sob o pretexto especioso de que não se deve colocar a luz sob o alqueire. Não vos deixeis prender nessa armadilha, e que os dirigentes de grupos sejam firmes para repelirem todas as sugestões deste gênero, se não quiserem passar por cúmplices dessas maquinações”.

  1. O grupo não visa, atualmente, realizar qualquer tipo de “trabalho mediúnico”, o que, se um dia acontecer, demandará a criação de reuniões particulares e com os devidos cuidados para tanto.
  2. Pelo mesmo motivo acima, não vemos necessidade de sermos tão restritivos quanto às novas adesões, isto é, os novos aderentes não carecem de serem versados em Espiritismo, mas devem, de sua própria parte, fazerem estudos basilares necessários, quando não conhecerem a essência da Doutrina Espírita (que não é aquela adquirida pela leitura de romances). Recomendamos, para esse fim, ao menos a leitura das brochuras O que é o Espiritismo e Espiritismo em sua expressão mais simples.
  3. Nossas reuniões de estudo são transmitidas ao vivo no Youtube, ou são gravadas para posterior publicação nessa plataforma e em outras. Todo aquele que participar dos estudos deve estar ciente e de acordo com esse ponto fundamental.
  4. O Grupo faz uso do site https://staging.geolegadodeallankardec.com.br e das plataformas virtuais diversas para divulgar o Espiritismo. Quem se sentir interessado em fazer parte disso, criando textos que possam auxiliar, devem contatar os administradores do Grupo.
  5. Todas as mídias digitais contam com outros colaboradores, igualmente colocados em função de administração, que possam cuidar do prosseguimento na eventual ausência, por tempo limitado ou indefinida, de minha parte.
  6. Tomaremos a liberdade de interromper qualquer áudio ou câmera que esteja atrapalhando a reunião.
  7. Ao participar da sala de reunião do Zoom, você está ciente que terá seu áudio e/ou vídeo compartilhados publicamente através da Internet (mais informações no formulário de inscrição, abaixo).
  8. O horário oficial de início dos estudos, com a transmissão via YouTube, é as 19:25.
  9. O período permitido para a entrada de participantes, na sala de espera (onde aprovaremos ou não sua entrada, segundo o preenchimento ou não do formulário abaixo) vai das 19:10 às 19:25. Depois disso, a permissão de entrada ficará exclusivamente sob critério dos anfitriões do grupo.
  10. A previsão de término da reunião é por volta de 20:40, às vezes se estendendo um pouquinho a mais.
  11. Antes de entrar, certifique-se de estar em ambiente favorável à participação, tanto visualmente quanto sonoramente, além de estar vestido adequadamente.
  12. De preferência, use um computador para a participação, onde será mais fácil interagir pelo chat do grupo.
  13. Por questões de organização, a reunião no Zoom e seus conteúdos didáticos são conduzidos por um integrante, que coordenará as participações de um e outro que desejem se expressar.
  14. Ao tomar a palavra, cuide para não estender demais o assunto para áreas que fujam do tema principal. Lembre-se: são 11 anos de Revista a abordar, dentre artigos acessórios e artigos fundamentais, muitas vezes com conteúdos intrinsecamente ligados entre edições diferentes, e, ainda por cima, junto aos conteúdos doutrinários complementares, tanto de Kardec, como de outros autores. Não queremos correr, mas não podemos perder tempo.
  15. Todos aqueles que desejem participar ativamente, questionando ou opinando sobre os artigos em pauta, devem observar a seguinte organização:

Fazer a leitura dos artigos relacionados ao tema ANTES da reunião de estudos. Isso permitirá que você sempre esteja a par dos assuntos, à medida que puderem ser abordados conforme o tempo disponível e a extensão de cada assunto. Reiteramos: a Revista Espírita, para estudos em grupo, não é algo que possa ser lido linha-a-linha, sem uma leitura prévia, já que muitos assuntos apresentam uma extensão formidável.

Sugestão:

  1. Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo. 
  2. Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo. 
  3. No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim a gente sai da leitura maçante
  4. Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos, como foi o caso do remorso e como poderá ser o caso, talvez, da frenologia (RE60/jun)
  5. As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, cremos que devem ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições.

22. Não se desmotive caso precise se afastar por algum tempo ou caso não possa estar sempre presente. Isso acontece com todos. Continue os estudos de sua parte e volte assim que possível.

23. Reitero, por fim, o nosso objetivo de construção sobre o diálogo. Assim, nos ajude a estabelecer esse diálogo, utilizando as redes sociais para isso também.

Preencha o formulário seguinte com os dados necessários para sua admissão na reunião. Não aceitaremos entradas de pessoas não registradas.

Materiais para estudos

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1861 > Dezembro > Organização do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868 > Dezembro > Constituição transitória do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Plano de campanha – Era nova – Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Os Espiões

O que é a Revista Espírita e como estudá-la? – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

Obras Recomendadas – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Andragogia

AUTONOMIA – A HISTÓRIA JAMAIS CONTADA DO ESPIRITISMO – Paulo Henrique de Figueiredo

Seminário: “Magnetismo” com Paulo Henrique Figueiredo

O Bem e o Mal, Castigos e Recompensas, Sombra e Luz – Paulo Henrique de Figueiredo – 1a Parte

Link para download de todos os PDFs das obras de Kardec:

Allan Kardec Brasil

Como pesquisar nos PDFs: https://www.youtube.com/watch?v=kgjdgIiHLJk

Contato (Paulo): Clique aqui.

Foto de Greta Hoffman : https://www.pexels.com/pt-br/foto/jardim-fazenda-sitio-chacara-7728883/




O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

Há poucos dias, no canal Grupo Espírita Educare, foi publicado um vídeo muito bem elaborado, por sinal, feito com muito esmero e de aparência estética de fazer inveja. Esse vídeo, intitulado “O LIVRO “A GÊNESE” FOI MESMO ADULTERADO?”, traz, a despeito de tanto esmero, informações pela metade, deixando de lado detalhes tão indispensáveis para a legítima discussão do caso sobre a obra derradeira de Allan Kardec.

No vídeo, citam o seguinte trecho de uma psicografia a Kardec, a respeito das alterações que ele desejava produzir em A Gênese:

“Permita-me alguns conselhos pessoais sobre a sua obra A Gênese. Penso, como você, que ela deve sofrer certas modificações que a farão ganhar valor sob o aspecto metódico; […] esta revisão é um trabalho sério, e peço que você não espere muito para realizá-la.”

Há, porém, algo substancial, existente nesse trecho por eles omitido (nas reticências entre colchetes) e que leva, não por acaso, o espectador a uma conclusão errada: a recomendação, repetida, do Espírito comunicante para que Kardec nada removesse no que concerne à Doutrina e às ideias que apareciam pela primeira vez:

Conselhos sobre A Gênese

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa carta clicando aqui.

Kardec contrariou os sábios conselhos do Espírito?

Ora, a adulteração de A Gênese produziu justamente isso: removeu trechos importantes, que comprometem o entendimento, deixando de fora ideias doutrinárias e conduzindo o leitor a um entendimento, por vezes, contrário ao da versão anterior – o mesmo que fizeram com a adulteração de O Céu e o Inferno.

Cita Henri Netto, no artigo “À procura da dúvida: onde está a verdade?”:

Os textos “novos”, ainda que pareçam ser verdadeiros (porque as mãos inteligentes que mexeram nas edições, postumamente, pinçaram textos contidos nos fascículos da “Revue Spirite” (publicada de janeiro de 1858 a abril de 1869, pelo próprio Kardec), buscaram, quando em conjunto às demais, sem lastro em qualquer publicação de Kardec, a “aparência de verdade”. Há trechos absurdos que contrariam não só outras teses apresentadas e reforçadas por Kardec ao longo de sua produção literária, coerente e sequencial, mas, também, o próprio corpo doutrinário (princípios e fundamentos). A maior delas, sem sombra de dúvida, foi criar uma dúvida, que não existia na versão original (primeira a quarta edições de “A Gênese”), sobre a natureza física, material do corpo de Jesus. Neste sentido, a eliminação do item 67, do Capitulo XV, da obra citada, e a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Cita também Paulo Henrique de Figueiredo em “Autonomia”:

Há uma questão inicial de Allan Kardec, bastante objetiva:

– Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Ou seja, era de iniciativa de Allan Kardec fazer uma modificação em sua obra, mas qual? Ele desejava acrescentar mais algumas coisas! Não tirar. E desejava fazer isso sem aumentar o volume do livro. O motivo de sua pergunta a Demeure está em saber se seria possível fazer isso, segundo a visão do Espírito. E a resposta é bastante objetiva e determinante. Ele respondeu, por meio do médium, enquanto Kardec anotava na folha:

– Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos. Mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Tirar alguma coisa? Nada quanto à Doutrina. Demeure foi bastante claro, mas ainda detalhou mais sua proposta:

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza. Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é no terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes.

Definitivamente não é o que encontramos na versão adulterada da obra de 1872! Foram centenas de supressões. Palavras, frases, parágrafos e até partes inteiras foram retiradas, algumas alterando o sentido do restante do texto. Basta dizer que a teoria sobre a conquista progressiva do livre-arbítrio, após o Espírito elaborar a consciência de si mesmo durante centenas de vidas, foi retirada depois de cuidadosamente elaborada por Kardec durante muitos anos, na Revista Espírita, e finalmente apresentada na obra A Gênese. Antes, o instinto dominava sozinho, mas a inteligência começa a se desenvolver, e aos poucos o instinto se enfraquece, então escreveu originalmente Kardec: “Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos” (KARDEC, [1868] 2018, p. 100). Esse importante trecho, fundamental para a Teoria Moral Espírita, foi deliberadamente retirado, contra a vontade de Kardec e as recomendações dos Espíritos, fato que agora comprovamos! Nas páginas desta obra detalhamos diversas dessas infames e criminosas falsificações.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. Editora FEAL.

Não bastasse, há um extenso trabalho de pesquisa, produzido por Marco Milani, demonstrando o fato de que a adulteração removeu diversas ideias doutrinárias importantes, bem como adicionou ideias exíguas, comprometendo o entendimento da obra no conjunto e no detalhe:

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/03/alteracoes-ocorridas-no-cap-1-da-5-ed.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/05/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5_15.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/02/comentarios-sobre-as-alteracoes-do-cap.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5a.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/01/natureza-e-materia-nao-sao-sinonimos.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/09/comentarios-sobre-o-capitulo-xv-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/11/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/12/inconsistencias-doutrinarias-da-5.html

Como fica provado, foram removidas diversas ideias doutrinárias, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado a essas questões.

Não se quer o diálogo para chegar à verdade, mas a imposição

Quando Leymarie criou o livro Obras Póstumas, inseriu nele a psicografia apresentada anteriormente, porém, adulterada, removendo justamente os conselhos do Espírito para que nada, no concerne à Doutrina, fosse removido. Tudo para dar crédito à sua versão a quinta edição de A Gênese foi mesmo produzida por Allan Kardec. Agora, no vídeo citado, o canal Grupo Espírita Educare faz o mesmo, mas não para por aí.

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique. Foi assim que, finalmente, ocultaram do público meus comentários feitos nesse vídeo:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois fui ocultado no canal. Aparentemente, não desejam dialogar sobre os fatos e as evidências, ditas por eles, “sumariamente desclassificadas”.

Vemos, portanto, que a peça de animação é apenas mais uma tentativa de conduzir o público à conclusão que eles desejam, mesmo que para isso tenham que omitir informações importantes e fazer afirmações rasas. Por nossa vez, depois de tanto incentivar o leitor ao estudo da obra O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato (link abaixo), só podemos desejar que cada um chegue às suas próprias conclusões, frente aos fatos e às evidências, que existem de sobra, a despeito da falácia do grupo CSI do Espiritismo de que todos os argumentos contrários teriam sido derrubados (sic).

Live: Gênese Adulterada – análise doutrinária das alterações entre as edições